quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Obrigada, Inverno

Hoje se celebra o início da primavera, mas também o fim do inverno. É verdade que no Brasil não temos estações bem definidas a ponto de notarmos a diferença, mas eu sei bem o que isso representa em lugares nos quais é possível percebê-la. Invernos costumam ser associados a solidão, porque não podemos ir para fora com tanta facilidade. Nada floresce nessa época e tudo ganha uma cor só. Contudo, se tem algo que aprendi a apreciar foi a beleza do inverno.

Passei por um longo inverno nos últimos anos. É verdade que no meio dele tive alguns dias de primavera, mas eles foram rapidamente substituídos por fortes ventos, que me arrancavam tudo. Tive inúmeros dias sem cor, sem ver nada que florescesse. Na verdade, tive vários dias em que achei que nunca mais algo ia florescer.

Mas não é assim que acontece. Tal qual nas histórias de Nárnia, o tempo do inverno também tem seu fim. O problema é que quando a gente vive muitos dias nele começa a não perceber que a primavera chegou.

"Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu.. Tá tudo assim, tão diferente". É assim que me sinto. Tudo mudou sem que eu nem percebesse.
O inverno me ensinou o valor do abrigo, de ter aonde se aquietar e se proteger. Me ensinou a importância de me preparar nos tempos de primavera e a ser mais grata por esses dias. Me ensinou a beleza de encontrar o Criador quando não existe mais nada que possa preencher os nossos olhos. Me ensinou a encontrar aquilo que me aquecesse, mesmo com toda a frieza ao meu redor. Me ensinou a acreditar que mesmo contra tudo aquilo que meus olhos veem, tudo irá florescer de novo, ainda que pareça seco e morto.

Eu sou grata pelo inverno. Sou grata, porque sem ele eu jamais apreciaria tanto a primavera. Sou grata porque Nele encontro mais de perto o meu Salvador. Tal qual Lucy, das Crônicas de Nárnia, sei que "Aslam" é o único que poderá trazer salvação.

Inicio esta primavera em um lugar completamente diferente do que eu imaginava estar. É verdade que começo uma nova estação sem uma pessoa que tornava os meus dias mais coloridos. É verdade que a dúvida e a incerteza ainda passeiam pelo meu coração.

Mas também é verdade que já vejo algo novo brotar. Vejo novas pessoas surgindo nesta primavera, que não conheceria não fosse o longo inverno que enfrentei. Vejo sonhos que sempre tive começando a sair da terra, ao criar raízes mais profundas. Vejo novas possibilidades, que a frieza e a escuridão me impediam de ver.

Eu não sei o que Deus tem planejado, mas sei que posso confiar meu futuro completamente em Suas mãos, qualquer que seja a estação. Não se atemorize se a primavera ainda não chegou pra você. Há beleza no inverno e em cada estação da nossa vida. Se estivermos cegos e surdos não veremos esta beleza, qualquer que seja o momento.

Brotará esperança. Brotará alegria. Brotará vida.

Com amor,

Amanda. 


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

AMARELO

Não sei se vocês conhecem, mas uma das minhas bandas favoritas se chama Coldplay. Uma das músicas deles que mais gosto é "Yellow", que significa "Amarelo" em Português. É uma música muito bonita, então eu gostaria de compartilhar uma parte da tradução aqui:

"Olhe para as estrelas
Veja como elas brilham para você
E para tudo que você faz
Sim, elas são todas amarelas

Eu fui em frente
Escrevi uma canção para você
E para todas as coisas que você fez
E essa canção se chamava "amarelo"

Então eu esperei a minha vez
Que coisa para se fazer!
E era tudo amarelo

Sua pele
Sim, sua pele e seus ossos
Transformaram-se em algo bonito
Você sabe?
Você sabe que eu te amo tanto"

Apesar de amar essa música, nunca entendi exatamente o que ela significava. Pensei que amarelo poderia ser alguma expressão em inglês que eu não conhecia, mas meus amigos nativos no idioma também não conheciam. Pensei então que pudesse ser algum estado de espírito como "I'm in blue", mas não se encaixava perfeitamente na música.

Não tinha entendido e não sei se essa foi a intenção do compositor, mas quando ouvi a expressão "Setembro Amarelo" e o que isso significava, lembrei dela com outros ouvidos.

Eu nunca fui diagnosticada com depressão, mas meus amigos e familiares que já foram relatam sempre uma mesma coisa: Nada do que os outros possam fazer consegue melhorar a situação. Nem mesmo as estrelas, se brilhassem insistentemente para elas ou para o que elas fazem, conseguiria realmente fazer algo brilhar em suas vidas. O mundo perde a cor. Talvez fique tudo só no amarelo.

É um sinal constantemente no amarelo. Um sinal de alerta, que diz pra você ter cuidado naquele cruzamento, que não lhe diz nem pra avançar, nem para parar, apenas diz: "atenção!". Mas atenção para o que?! Devo ir ou ficar?! É um estado de indecisão, mas que exige decisão rápida. Mas como decidir, se não sei o que me aguarda se eu decidir ir ou se eu ficar?!
Para algumas pessoas, o sinal fica verde e elas avançam. Para outras, ele fica vermelho e elas param, mas logo voltam a se movimentar de novo. Mas para quem está no amarelo não. Elas não avançam nem param, apenas ficam em um estado de espera pela resposta sobre o que fazer, mas não conseguem se mover.

Algumas pessoas param ao lado dessas pessoas e ficam angustiadas, dizendo "Ei, o sinal está verde! Vá!", mas para quem está neste estado, ainda está amarelo. Outras pessoas vêm por trás e não querem parar, por isso ficam bravas com esta pessoa, que parece não se decidir. Gritam: "Anda logo! Você não pode ficar aí pra sempre!! Não vê que dá tempo de ir?! Você está me atrasando". A pessoa então fica aflita, acha que está atrapalhando, sente-se mal por isso, mas tudo continua amarelo aos seus olhos.

Amarelo também é a cor que vemos o sol. O sol que nasce todas as manhãs, para todos nós, justos e injustos. O que os outros geralmente não sabem é que o sol não é exatamente o mesmo pra todos. Este amarelo pode ser de alegria por um novo dia que nasce, cheio de expectativas. Mas também pode ser um amarelo que dói por causa de uma noite mal dormida ou por ser um sol que obriga a acordar, levantar e enfrentar o dia. Para algumas pessoas, esse amarelo pode ser extremamente doloroso e sinônimo de angústia.

Eu queria dizer algo para estes que se encontram no segundo grupo:
Assim como o compositor de Yellow, Deus escreveu uma linda canção para você. Uma canção que fala de graça, amor incondicional, perdão e aceitação. Não é uma canção tão fácil de se ouvir, porque os ruídos deste mundo estão muito altos e cada vez mais variados. Eles tentam nos impedir de ouvir esta canção. Eles tentam nos impedir de cantar.

Penso no Pai, dizendo quando te criou:

"Sim, sua pele e seus ossos
Transformaram-se em algo bonito
Você sabe?
Você sabe que eu te amo tanto".

Penso Nele escrevendo seus dias, antes da fundação do mundo. Penso no sangue de Jesus sendo derramado por você, com um amor que literalmente rasgou Sua carne. E penso em você, tão triste e sozinho, mesmo cercado de gente e meu coração dói, muito, de uma maneira que eu não consigo explicar.

Longe de mim achar que seu problema é "falta de Deus". Longe de mim também dizer "Jesus te ama" sem te contar antes todas as implicações desse amor.
Eu só queria te pedir hoje: Escute essa canção! Não a do Coldplay, mas a do amor de Jesus por você. Não, Ele não veio pregar só amor. O amor Dele é exigente e demanda tudo de nós. É um amor doloroso de se entregar. É o amor perfeito, porque Ele é amor. Mas esse Amor também veio falar de uma alternativa, de uma esperança que jamais deveria ser esquecida. Mais que uma esperança, uma realidade que pode e deve ser vivida nessa Terra. Permita-se ouvir essa canção. Mesmo aí, parado no amarelo, sem saber o que fazer. Escute-a e garanto-lhe que você poderá prosseguir. Se estiver muito fraco, não tenha medo de pedir que alguém conduza o volante por um tempo e descanse no banco do lado, crendo que essa pessoa não irá te levar para onde você não queira.

O final da música Yellow diz: "Por você eu sangraria até ficar seco" ou em uma tradução mais adequada "por você eu daria todo o meu sangue". Só existe na História uma pessoa que deu todo o seu sangue por alguém que não merecia. O único sangue que poderia fazer alguma diferença. O sangue que faz TODA a diferença.

Olhe para as estrelas, veja como elas brilham pra você. Numa noite em Belém da Galileia, elas brilharam mais forte, celebrando um marco na história de toda a humanidade, celebrando a vida Daquele que as criou, celebrando a nova vida que passamos a poder ter. Elas brilham pra mim e pra você relembrando essa glória.

Não desista agora.

Com amor,

Amanda.

(NOTA: Eu tinha uns cinco textos inacabados sobre depressão e suicídio. Tentei termina-los e ousar posta-los por diversas vezes, mas nunca consegui. Todos eles foram embora junto com o ladrão que levou meu celular e com ele todos os meus rascunhos. Esse mês é o mês escolhido para a prevenção ao suicídio. Eu não sei o porquê, mas hoje, ao ouvir o quinto relato de uma tentativa de suicídio (algumas infelizmente consumadas) eu comecei a achar que este mês foi escolhido porque provavelmente as estatísticas são mais altas nele. Então eu decidi falar sobre o assunto. Decidi ousar falar, porque só no último ano, três pessoas muito queridas, que conheço de lugares completamente diferentes, me falaram uma mesma frase que me deixou zonza durante dias: "Eu pensei em me matar/tirar minha própria vida/acabar com tudo de vez". Fiquei zonza por pensar no que seria da minha vida se eles tivessem consumado o ato. É verdade que eu continuaria a viver, mas será que elas saberiam o tamanho do espaço que iriam deixar em mim?! Então eu decidi falar, porque se você, que hoje lê este texto, precisa de alguém pra dividir a dor, quero que saiba que existe gente que se importa e não quero de jeito nenhum que você deixe este buraco em minha vida ou na vida de outros que te amam. Estou aqui!)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O CÂNCER E EU - Relato de uma batalha

Foram dois anos, oito meses e cinco dias. Cada um deles contados com muita atenção e gratidão. Dois anos, oito meses e cinco dias desde o dia em que ouvi do médico da urgência do hospital: “A hipótese mais provável é de um tumor que está obstruindo o intestino. Ela não vai sair daqui hoje”.

Como assim “ela não vai sair daqui hoje”?!

Era o dia 27 de dezembro de 2013. Tinha sido um ano intenso pra mim. Entrei naquele ano em Praga, capital da República Tcheca, passando uma das experiências mais incríveis da minha vida. Por outro lado, tive que me adaptar a vida real fora da Aviação e enfrentar um dos capítulos mais tenebrosos da minha história. Já tinha sido o suficiente para um ano, mas parecia que as surpresas não queriam acabar. Lembro bem desse dia, ou pelo menos, daquela noite. Eu tinha saído pra encontrar algumas amigas e quando cheguei em casa minha avó continuava passando mal, após vários dias queixando de dor abdominal. Minha tia tinha acabado de voltar com ela de um hospital e o médico disse que provavelmente eram gases, porque “ela devia ter comido muito no Natal”, mas todos nós conhecíamos a minha vó e se ela dizia que estava com dor é porque a dor realmente estava intensa. Já eram 23h30 e ela estava cansada. Eu não aceitei o diagnóstico desse primeiro médico, mas ela não queria ir pra outro hospital. “Deixa pra amanhã... Amanhã a gente vai”. Deve ter passado algum anjo e soprado no meu ouvido, porque eu só consegui dizer: “Agora. Nós vamos AGORA”. Levei minha avó com dores abdominais pro hospital e achava que após uma simples medicação ela voltaria pra casa. Devido a proximidade do ano novo e ao horário, as ruas já estavam vazias e só tinha uma pessoa pra ser atendida antes dela. Engano meu achar que por causa disso ela seria atendida rápido. Foram mais de três horas aguardando atendimento. Durante esse tempo, minha avó começou a empalidecer e ter náuseas. Às 2h30 começou a vomitar. Um vômito estranho, com um cheiro forte, que eu nunca tinha sentido. Comecei a ficar assustada, porque nunca tinha visto minha avó tão mal. Quando finalmente, às 3h00, entramos no consultório do médico, vi uma cena que jamais poderia imaginar. Minha avó teve o chamado vômito fecalóide (vômito com fezes) e começou a piorar muito. Olhei pro médico horrorizada e disse: “Está com cheiro de fezes, Doutor!”. Pelo olhar dele, eu sabia que não voltaria pra casa com minha avó naquele dia.

Foi uma madrugada terrível. Enfiaram uma sonda enorme no nariz da minha avó, para retirar o que estava no estômago. O rapaz do raio-X, pra melhorar a situação, fez o exame da face ao invés de fazer do abdômen, o que causou mais transtorno. Acho que entrei em transe, porque tudo daquele dia parece ter sido só um sonho ruim. Lembro da primeira vez que ouvi o médico dizer a palavra “câncer” e me fazer perguntas que agora ganhavam um novo sentido. Lembro do meu pavor ao me dar conta da notícia que teria que passar pra minha família. Lembro de alguém murmurando algo sobre “risco de infecção generalizada” e outro médico falando que “o caso era muito difícil”. Eu ia perder minha avó. Eu sempre soube disso, mas naquele dia isso se escancarou. Achei que ela não fosse viver muito tempo e que aqueles seriam os nossos últimos dias. Com todo aquele pavor e sem sentir direito o chão em que eu pisava, eu ainda tinha que tranquiliza-la, sem saber ao certo o que dizer. Ainda não era o momento dela saber.

Então vieram cheiros, sons, sentimentos, lutas, que eu não conhecia  e me sentia sortuda por não conhecer. Lembrei de quando passava ao lado de um hospital e pensava “coitadas dessas pessoas”. Lá estava eu, sentindo cheiro de fezes, urina e álcool, ouvindo apitos de todos os lados dos aparelhos que cercam os pacientes, vendo sangue ser manipulado com naturalidade e comendo a comida que tantos abominam, coisas absolutamente comuns dentro de um hospital.  
Minha avó não se entregaria fácil e uma equipe de médicos muito bem capacitada pegou o caso. Foram vinte e três dias no hospital. Já em janeiro de 2014, foi realizada uma cirurgia para retirada de parte do intestino e reconstrução do ureter, que tinha sido comprimido pelo tumor. A médica disse que o câncer já vinha se desenvolvendo a algo próximo de dez anos, porque o primeiro centímetro do câncer de intestino demora muito pra se formar (cerca de cinco anos). Dez anos que minha avó convivia com a doença e não sabia.

Como era de se esperar dela, minha avó surpreendeu todo mundo e saiu rapidinho do hospital. Começamos então a lidar com um nome antes pavoroso até de ser pronunciado, chamado “quimioterapia”. No início doía pra falar, depois, passei a falar com tanta naturalidade que acho que algumas pessoas pensavam que eu fazia pouco caso da situação. Quando você lida com o mesmo inimigo durante muito tempo, falar o nome dele não se torna tão pavoroso.

Conhecemos um anjo chamado Dr. Caio Heleno, oncologista do Ipsemg. Um médico extremamente humano, sensível e solidário ao paciente e à família, sem deixar de ser realista e profissional.

Minha avó enfrentou a batalha com fervor. Os efeitos colaterais não tiravam dela o sorriso e a vontade de viver. Com exceção dos dias em que os efeitos eram piores, ela levava uma rotina relativamente normal. Meus amigos quando a viam pessoalmente não acreditavam que era ela quem enfrentava a situação que eu relatava. Quando você lida com o mesmo inimigo durante muito tempo, precisa aprender a conviver com ele.

Descobri que o câncer é uma montanha russa. Na mesma hora em que você está lá em cima e acha que nunca mais vai descer, vem uma queda abrupta, um loop, que tira o paciente e a família do eixo de novo. Foram meses de uma sucessão de boas e más notícias. Um outro tumor se desenvolveu no ovário, no final de 2015, e uma hérnia enorme começou a causar problemas de novo. Os médicos e eu sabíamos que o tempo de sobrevida da minha avó não era longo e então deu-se início a uma batalha para encontrar um médico que quisesse operá-la. Conhecemos aí a face mais cruel da “indústria da doença”, porque fomos em dois médicos que tentaram nos extorquir (não consigo dar outro nome) para fazer uma cirurgia dentro do hospital conveniado. Penso em quantas pessoas, no momento de desespero, se endividam por algo que jamais precisariam pagar. Quando você lida com o mesmo inimigo durante muito tempo, descobre que ele lucra com o sofrimento dos outros.

Mais uma vez, em sua infinita graça, Deus colocou uma excelente equipe médica em nosso caminho, de um jeito que só poderia ser fruto da graça. Minha avó acabou tendo que ser operada na urgência devido a uma complicação, mas o médico que tinha se proposto a operá-la foi quem fez a cirurgia. De novo, minha avó surpreendeu e saiu super bem da cirurgia. De novo, o lampejo de esperança e alívio tomou conta do nosso coração.

Desde o primeiro dia em que recebemos o diagnóstico, soubemos que já havia acontecido uma metástase pulmonar. Vários nódulos pequenos estavam espalhados por todo o pulmão. Não havia cirurgia possível, mas com a quimio eles poderiam ser controlados. Minha avó nunca sofreu por causa deles, até maio deste ano. Uma pneumonia complicou o quadro dela e dois meses antes do meu casamento achei que fosse perdê-la. Nenhum médico acreditava que ela fosse sair daquela vez. O pulmão já não saturava como antes e minha avó passou a não conseguir efetuar tarefas simples. Mas Beatriz não era todo mundo e mais uma vez ela saiu do hospital e aos poucos foi conseguindo fazer pequenas atividades.

O oncologista nos avisou o que viria a seguir. O quadro dela melhoraria com corticoides e ela conseguiria chegar ao meu casamento. Depois disso, os corticoides deixariam de fazer efeito e aí viria a piora. Médicos não são Deus, mas estão mais acostumados com a morte do que nós e foi exatamente assim que aconteceu.

Tivemos dois meses da mais profunda mistura de sentimentos. Alegria e tristeza, esperança e desespero, expectativa e cansaço. Fizemos o que estava ao nosso alcance para trazer alegria aos dias da minha avó, qualquer que fosse a quantidade deles. Conseguimos sair de casa algumas vezes, com a cadeira de rodas e o oxigênio. Ela assistiu ao concerto que tanto queria e comeu todas as comidas que quis.

No dia do meu casamento, lá estava ela, linda num vestido azul. Entrou andando, sem o suporte de oxigênio. Foi o melhor presente de casamento que Deus me deu. Pelo menos por uma noite, pude ver minha avó plena. Alguns dias atrás, meu pai me mostrou um vídeo deles no carro, indo pro casamento. Minha avó olhava pela janela, quietinha, pensando em algo que nunca saberemos o que é. Talvez tenhamos chance de descobrir, se partirmos desse mundo em uma situação que permita despedidas.

Os últimos dias dela não foram tão cheios de vida. Ela foi pro hospital em uma situação muito difícil por causa do pulmão. Minha tia avó, que cuidou dela de forma maravilhosa durante todos esses meses finais, me ligou em um domingo à noite, pedindo que eu fosse para BH, porque a situação havia se complicado. Peguei o último ônibus e vim orando durante todo o caminho para que tivesse tempo de fazer uma última oração. No peito, aquele aperto por não ter passado as últimas semanas com ela.

Tivemos três semanas para nos despedir. Ela, como sempre serena no olhar e no jeito simples de falar com todas as pessoas, conquistou cada profissional do hospital. De vez em quando, ela desabafava dizendo que nunca tinha pensado que ia ficar assim. Ficava constrangida quando trocávamos a fralda ou tínhamos que dar comida na boca. Ela dizia: “Come primeiro, depois você me dá”. Sempre pensando nos outros antes dela. Ela não reclamou em nenhum momento. Queria poder dizer que ela também não sentiu medo, mas infelizmente isso não é verdade. Pediu alívio algumas vezes, quando já não conseguia respirar. Foi aí que tive que tomar a decisão mais difícil da minha vida e permitir que a sedassem. Não podia vê-la sentindo dor, como se estivesse afogando fora d´água.

Os cinco dias seguintes foram os piores da minha vida. Minha avó continuava viva, mas não estava mais conosco. Conheci na pessoa que eu mais amava a terrível respiração agônica. Os lábios secaram, a língua também. Já não havia mais resposta, não havia mais sorrisos, não havia mais o abraço. Pegava a mão dela e colocava em cima da minha cabeça, tentando guardar para sempre a sensação daquele calor sobre mim.

Consegui imprimir aquelas mãos na minha alma e no dia 02 de setembro de 2016, após dois anos, oito meses e cinco dias desde o diagnóstico, minha avó deu seu último suspiro e partiu para a eternidade com o mesmo semblante sereno de toda a vida. Não consegui chorar. Eu e minha tia avó estávamos dormindo há cinco dias juntas no hospital, porque uma se recusava a deixar a outra sozinha, sabendo o que aconteceria a qualquer momento. Se me mostrassem esta cena antes, eu choraria desesperadamente, mas naquele momento, a única coisa que veio ao meu coração foi: “Não sofra. Ela está bem”.

Minha avó se foi e partiu levando um pedaço de mim que nunca poderá ser preenchido. Perdi a conta de quantas noites chorei desde que era criança, só de pensar nesse dia. Numa das noites no hospital, chorei de uma forma que nunca tinha chorado antes, como se o choro viesse do meu umbigo. Foi uma dor tão grande que eu literalmente me contorci.

O câncer me pôs a prova diversas vezes. Colocou minha fé e todas as minhas convicções no fogo. Tive inúmeros momentos de raiva, ódio, desesperança, vontade que tudo nesse mundo acabasse logo.

O câncer me colocou frente a frente com a morte, mas também com a vida. A realidade da vida.

O câncer me fez ler a Bíblia com outros olhos e entender palavras de vida eterna de outra maneira.

O câncer é uma doença democrática. Não escolhe idade, classe social ou momento ideal para entrar na vida das pessoas. O câncer sempre se adianta, sempre entra cedo demais na vida de quem escolhe. O câncer não diz que virá só uma vez nos assombrar. Pode voltar a qualquer momento, em quem ele quiser e transformar nossa vida em uma montanha russa de novo.

Na verdade, acho que o câncer não é a montanha russa, a nossa vida é que é.  A vida de todo mundo, com ou sem ele. A questão é que o câncer coloca um holofote nisso, escancarando aos nossos olhos a fragilidade da vida. Essa máquina perfeita, que funciona de uma maneira que a ciência nunca conseguirá explicar por inteiro, também é completamente frágil, completamente inutilizável.

O câncer me fez querer um corpo incorruptível, me fez desejar uma vida com sentido, uma vida que valha a pena. O câncer me fez entrar em desespero ao perceber o quanto desperdiço o meu tempo. O câncer ativou uma ampulheta dentro de mim e ao ver quão rapidamente ela se esvai, eu tenho vontade de fazer tudo diferente. O câncer me fez amar mais as pessoas, ser mais paciente com os erros dos outros, entender as escolhas que os outros fazem diferente de mim.

Agora, eu estou bem certa de que nem morte, nem vida, podem nos separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo, nosso Senhor, que faz com que todas as coisas, inclusive o câncer, cooperem para o nosso bem, para cumprir o Seu soberano propósito nessa Terra. (Romanos 8)

Porque eu descobri uma alegria suprema, que vai além de toda e qualquer circunstância, que mesmo quando eu estou me contorcendo ao chorar, toma conta de mim e me faz ver a glória do meu Salvador que em breve virá restaurar todas essas coisas. (Filipenses 4:7, Apocalipse 21)


Porque Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele pois, seja a glória para sempre, amém! (Romanos 11:36)

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Renascerá


Essas duas fotos foram tiradas com pouco mais de uma semana de diferença. Explico porque quis registrar. Quando nos mudamos, víamos ao lado do nosso apartamento este terreno completamente verde. Quase morri de emoção quando vi uma família de tucanos pousando em uma dessas árvores que agora está seca. Contei para meu marido toda empolgada que tinha visto essa família e já tinha planos de colocar um bebedouro aqui na varanda pros passarinhos.

Não demorou uma semana pra eu ver isso tudo literalmente se acabar. O suposto proprietário do lote bem ao lado do nosso decidiu fazer uma "capina" colocando fogo, algo que além de criminoso, nos fez sair às pressas do prédio, porque o fogo se alastrou e as chamas tornaram impossível respirar do lado de dentro. Os bombeiros foram chamados, o fogo apagado e o que antes era verde e vida se tornou literalmente cinzas.

Fiquei arrasada. A família de tucanos nunca mais voltou. Parei de ouvir os passarinhos de manhã. O ar que antes era limpo e fresco por causa do verde, ficou seco e com um cheiro horrível de fumaça.

Pensei em quanto tempo a natureza ainda teria pra aproveitar, enquanto o dono do terreno não decide ocupá-lo de vez e essa semana fui surpreendida por essa segunda imagem. O verde começa a tomar conta de novo, sem pestanejar com as cinzas que o encobrem, ganhando mais força e espaço a cada dia. Duas siriemas vieram checar a situação esses dias pra passar o protocolo pra galera e hoje já escuto um monte de passáros cantando de novo, cada vez mais perto do meu prédio.

É um enorme clichê dizer isso, mas esse evento simples foi uma metáfora perfeita do momento que estou vivendo e me fez relembrar algo que já estou cansada de saber: A vida possui seus próprios ciclos e a gente precisa aprender a respeitá-los.

Jardins podem ser incendiados a qualquer momento e tudo aquilo que a gente acha que tem de mais bonito, pode vir a se tornar cinzas num instante. Nesses momentos, é muito difícil lembrar da beleza e da vida que existia antes. É mais difícil ainda acreditar que haverá vida ali de novo. Pois eu lhe digo:

"Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará".
Isaías 11:1

O Renovo certamente virá. Existe uma Árvore cuja Raiz não se pode arrancar e que nunca, jamais poderá ser cortada. Renascerá aquilo que um dia morreu e a glória dessa segunda "casa" será ainda maior que a da primeira.

Eu tenho vivido muitos e variados ciclos desses há anos, meses, semanas e às vezes até no mesmo dia, como hoje. Quando acho que tudo está morto, vejo a esperança brotando em meio às cinzas. Isso só é possível quando eu bebo da única fonte que pode trazer vida ao que está seco dentro de mim. Nada fora dessa fonte pode me vivificar ou trazer. Por isso, se você está passando por um desses momentos de cinzas, gostaria de lhe dizer: "Aos que têm sede, venham e bebam". Existe uma fonte inesgotável a jorrar para aqueles que O buscam. Não permaneça em cinzas. Você não precisa. Deixe renascer aquilo que você acha que nunca mais terá vida.

Termino com as palavras de Jesus, a uma mulher que não sabia porque Ele falava com ela: "se você soubesse o que Deus pode dar e quem é que está lhe pedindo água, você pediria, e ele lhe daria a água da vida".

Busque-O enquanto se pode achar, no dia que se chama hoje.

No amor de Cristo,

Amanda.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Aprendendo a viver

Dia desses, tive uma crise terrível, da qual achei que não sairia mais. Estava péssima, sem esperança na vida, sem alegria, sem perspectiva de encontrar felicidade nesse mundo. Uma das coisas que mais me entristecia era não ter feito tudo que gostaria pela minha avó, quando ela ainda estava saudável. Minha mãe, em sua infinita sabedoria, me disse o seguinte: "Minha filha, às vezes a gente quer fazer pelos outros o que a gente gostaria que fizessem por nós, mas nem sempre é isso que as pessoas querem. Você tem que saber que ela teve a vida que quis e foi feliz à forma dela, mesmo que não fosse a vida que você quisesse". É duro de se ouvir, mas esta é a mais pura verdade, que minha avó confirmou ontem, da maneira simples dela. 

Ontem, ao chegar em casa, deitei ao lado dela e fiquei pensando no que poderia fazer para torna-la mais feliz. Perguntei: "-Biá, se você pudesse fazer qualquer coisa agora, qualquer coisa mesmo, o que você faria?". Ela respondeu: "- Agora? Qualquer coisa? Eu ia lavar roupa, arrumar minha casa...". Me deu vontade de chorar. Só depois de eu insistir muito em um sonho mais ousado é que ela respondeu: "Amanhã tem concerto". 

Faço parte da geração que quer ganhar o mundo, mas como disse Jung, esquecemos que o mundo não vai se permitir ser ganho por nós. Queremos viagens, os melhores lugares, os amigos mais importantes, os melhores salários, uma vida cheia de emoção e novidade. Eu consegui muita coisa que a minha geração deseja antes de completar vinte anos. Ganhei bem, viajei muito, conheci lugares que minha avó nem sabe que existem. Tudo isso foi maravilhoso, mas sabem de uma coisa? Se eu pudesse escolher qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, eu escolheria poder levar minha avó a um último concerto. Nenhum lugar do mundo me deixaria mais feliz que isso. 

Saiba: a vida é breve e as pessoas finitas. Será que no fim dela poderemos dizer que se pudéssemos escolher qualquer coisa, viveríamos exatamente da forma como temos vivido?

Você já leu isso em diversos lugares, mas eu faço questão de repetir: Não espere amanhã pra dizer "eu te amo". Não espere "mais tarde" chegar para mudar sua vida e tomar decisões a respeito dela. Não deixe coisas pequenas tomarem conta do seu coração a ponto de se tornarem grandes e te sufocarem. Viva menos estressado, tenha mais gratidão. Perdoe, ame, sorria, abrace, beije, lave as roupas, trabalhe, vá a concertos, veja uma vista bonita de um lugar alto, tome mais cafés com pessoas amadas, aproveite as coisas simples da vida. Nós, as pessoas que amamos e este mundo vamos passar. Só o Eterno é eterno. Faça valer a vida que Ele lhe deu e o tempo que ainda lhe resta. O mundo é triste, a vida é dura, tem muita coisa que nos deprime, oprime, destrói nossa esperança, mas agarre-se na certeza de que em breve tudo isso passará. 

E como minha mãe disse para me ajudar a sair da crise há poucos dias, se olharmos a vida pela janela da tristeza, vamos perder muita coisa bonita. 

Não digo que seja fácil, mas afirmo que é possível encontrar cor mesmo nos dias mais cinzas. 

Deixo novamente aqui a letra de uma das canções que mais amo. 

O Tapeceiro sabe o que faz.

No amor de Cristo,

Amanda. 

"O TAPECEIRO- Stênio Marcius

Tapeceiro, grande artista,
Vai fazendo seu trabalho
Incansável, paciente no seu tear

Tapeceiro, não se engana
Sabe o fim desde o começo,
Traça voltas, mil desvios sem perder o fio

Minha vida é obra de tapeçaria,
Tecida de cores alegres e vivas,
Que fazem contraste no meio das cores
Nubladas e tristes
Se você olha do avesso,
Nem imagina o desfecho
No fim das contas, tudo se explica,
Tudo se encaixa, tudo coopera pro meu bem

Quando se vê pelo lado certo,
Muda-se logo a expressão do rosto,
Obra de arte para Honra e Glória do Tapeceiro

Minha vida é obra de tapeçaria,
É tecida de cores alegres e vivas,
Que fazem contraste no meio das cores
Nubladas e tristes
Se você olha do avesso,
Nem imagina o desfecho
No fim das contas, tudo se explica,
Tudo se encaixa, tudo coopera pro meu bem

Quando se vê pelo lado certo,
Todas as cores da minha vida
Dignificam a Jesus Cristo, o Tapeceiro".


segunda-feira, 2 de maio de 2016

DONA ADÉLIA SAI PARA UM PASSEIO

                O dia nem pensou em clarear, mas Adélia já está de pé, coando o café e preparando a marmita. Prepara a bolsa térmica que ganhou no sorteio da igreja com cuidado e carinho. Separa um pedaço da broa de ontem e embrulha num pano de prato bordado. O cheirinho do café acorda sua netinha, que já sabe que é dia de passeio. “-Ainda não, meu amor”, ela diz pra menina de olhar ansioso, que aguarda há dias pela viagem.
                Logo chega a hora e as duas saem de casa. Dona Adélia coloca uma blusa na menina por causa do frio da madrugada e carrega as pesadas sacolas. De um lado, a bolsa térmica, do outro, a bolsa de documentos e exames.
                Quando chegam à porta da prefeitura, encontra amigas que fez num daqueles passeios. Elas também estão animadas com as boas notícias dos últimos dias. Conseguir vaga na van era tarefa difícil nos últimos tempos e as viagens vinham se tornando cada vez mais escassas, por isso todas pareciam felizes por finalmente conseguirem embarcar.
                “Todos prontos?”, pergunta o motorista, já colocando o cinto. Como ninguém apresenta oposição, ele liga o carro e segue viagem. Dona Adélia nota que seu banco está um pouco solto, mas pelo menos não tem nenhum barulho estranho dessa vez.
                São 4 horas de viagem até Belo Horizonte, sem paradas, para economizar tempo e dinheiro. Dona Adélia vê sua pequena cidade ficando longe e sente uma mistura de alívio e medo, como em todas as vezes que entra naquela van.  A netinha também olha desperta tudo que vai passando pela janela, mas logo vem o sono e ela se aconchega no colo da avó. Adélia não gostava de levá-la naquelas viagens, mas desde que a filha tinha se envolvido com um tal de Jairo, a menina vivia jogada e a avó acabou lhe tomando por filha. Achava que a menina ficaria cansada e pensava que era ruim ela perder aula, mas a menina não parecia se importar, encarando a viagem como diversão. Gostava de ver a capital e as luzes da cidade antes do amanhecer. Gostava de ver os prédios altos e do picolé que o moço passava vendendo num carrinho. Só não gostava da expressão da avó, todas as vezes que saia do doutor. Aliás, não gostava nem um pouco do doutor. Todas as vezes que a avó ia lá, saia com um olhar diferente. Era a pior parte da viagem pra menina.
                Chegaram a Belo Horizonte. Adélia e a menina olhavam para os prédios ainda sem vida, mas onde já era possível ver algumas luzes. “O que toda essa gente faz, vó?”, pergunta a menina intrigada. “Um monte de coisa, minha filha, só que coisa de cidade grande”, responde Adélia. Ela não sabe exatamente o que são todas essas coisas, mas imaginava que eram coisas importantes, porque sempre via as pessoas passando com cara séria e correndo de um lado para o outro.
                “-Santa Casa!”, grita o motorista lá da frente. Adélia pega a mão da menina e as sacolas e finalmente desce da van. Agradece a Deus por não estar chovendo, porque o atendimento só começa às 7h.
                O dia clareia e a praça começa o movimento já conhecido por Adélia. Gente de branco, de terno e gravata, com uniformes de empresas e estudantes passam por ela numa velocidade tão grande que a fazia pensar se não eram os mesmos que ficavam passando ali o dia todo. “-A gente da cidade é toda igual”, ela ouviu da vizinha uma vez e agora podia concordar.
                A menina levanta de seu colo, com o cabelo desgrenhado e o pescoço doendo por causa do banco duro que estavam sentadas. Adélia ajeita o cabelo dela e serve um pedaço da broa com um pouco de café.
                “-Vó, pra onde será que esse povo todo vai?”
                “-Pra muitos lugares, minha filha, trabalhar, estudar...”.
                “- Mas por que eles correm tanto?”
                “- Não sei, meu amor. Acho que o tempo na cidade passa mais rápido”.
                Elas entram no hospital. Na porta, um senhor começa a passar mal e vomita segundos antes de Adélia passar. Ela se pergunta se deve parar para acudi-lo, mas uma outra moça corre desesperada para socorrê-lo: “-Ô pai, falei pro senhor ficar quietinho!”. Adélia pega a senha do atendimento: número 12. “Essa é uma das vantagens de chegar cedo”, comenta a moça de número 11.
                Por volta das 11h, nada de chamarem sua senha. A moça do balcão tinha explicado mais cedo que o médico tinha ficado preso em outro andar, porque não tinha outro pra atender “lá em cima”. A menina já havia arrumado uma coleguinha e não parecia ligar para a demora. A coleguinha com quem ela brincava usava uma máscara na boca e não tinha nenhum fio de cabelo. Adélia sabia o que isso significava, mas não conseguia sentir pena, vendo aqueles olhinhos brilhantes e corajosos esperando pacientemente sua vez. “É o lugar de gente mais corajosa que já visitei”, foi o que disse quando voltou da cidade a primeira vez.
                O doutor finalmente a chama, bem na hora que o estômago de Adélia deu um alto ronco. Ela nota os olhos fundos do médico e acha que ele parece mais velho desde a última vez que o viu.
                 “- Dona Adélia, a senhora me desculpe, mas meu colega não pode vir e isso me agarrou lá me cima. Como a senhora está?”, diz o médico abrindo o prontuário.
                “- Caminhado e vencendo, doutor. O senhor que tá parecendo cansado”.
                O médico dá um sorriso e responde: “-Faz parte, dona Adélia”.
                Adélia não entende tudo o que médico diz, mas algumas partes entende bem: “a senhora tá bem..”, “não cresceu muito...”, “precisava ficar aqui...”, “o tratamento é melhor..”, “tem mais recursos...”, “mas a senhora tem que ver...”, “eu entendo...”, “vê direitinho...”, “é pro bem da senhora...”.
                Ela olha para a menina e o médico olha pra ela.
                “-Obrigada, doutor. Vou ver o que faço”.
                O médico sabe o que esta resposta significa e prescreve a quimioterapia do dia, sentindo-se impotente por ser a única coisa que pode fazer – de novo.
                A menina fica sentada com outras crianças numa sala ao lado, enquanto a avó permanece ligada aos equipamentos da quimio. Tentaram proibir a entrada de crianças no hospital, mas descobriram que isso seria o mesmo que impedir o tratamento de diversas mulheres. Por fim, médicos e enfermeiras decidiram fazer vista grossa e se alguém quisesse remover as crianças da sala de espera, que esta pessoa mesmo encontrasse lugar melhor para elas.
                Adélia sai meio zonza da sala e sente aquele embrulho no estômago. Sente saudades de sua doce mãe e do chá de boldo que ela preparava quando tinha dor de barriga. Era horrível de tomar, mas ela sabia que era alívio imediato. Infelizmente, o boldo não podia ajuda-la mais.          
                Ela e a menina se sentam na praça para esperar a van, junto com outros pacientes que haviam chegado. A menina finalmente avista o moço do picolé e Adélia retira da bolsa uma nota de R$2,00, o único dinheiro que podia gastar durante a viagem. Era o ponto alto para a menina! Parecia que para a neta aquilo era uma grande aventura, que terminava de forma doce e divertida.
                Uma moça passa pela praça. Adélia pensa já tê-la visto passando por ali antes. A moça é quem parece vê-la pela primeira vez. A moça olha para trás, fixando os olhos na menina, sorrindo com o picolé. A moça olha de novo e torna a olhar uma terceira vez. Adélia não sabe o que se passou na cabeça dela, mas decidiu devolver o sorriso que ela finalmente lhe deu. Será que ela agora tinha uma amiga na cidade?
               
                Dona Adélia, eu não sei se este é seu nome, nem mesmo sei se esta é sua história. Não sei nem dizer quantas você é e nem quantas vezes te vi. Só sei que um dia, passando na minha habitual correria, eu finalmente a vi. Você e tantos outros, que permanecem na invisibilidade por causa das nossas “preocupações maiores”. Vocês, que vêm para a “cidade”, exercerem seu direito à saúde, garantido constitucionalmente e que têm esse direito devorado por gente que sequer considera a existência de vocês. Vocês, que se amontoam na área hospitalar de Belo Horizonte, vindos em vans com nomes de cidades que nem sabemos existir, mas que com certeza receberam orçamento suficiente para evitar muitas dessas viagens.
                Eu chorei por vocês. Chorei não porque vocês sejam dignos de pena. Vocês me mostraram (e mostram) a alegria em sua nuance mais plena. A alegria que não vê circunstâncias, nem se importa com a quantidade de direitos fundamentais violados em uma só viagem, mas que se alegra no momento do picolé para a neta. Uma alegria e gratidão por coisas que eu nem considerava privilégio, por causa da facilidade de morar em um centro urbano.
                Ah, Dona Adélia, eles precisavam te ver! Precisavam te ver antes de pensar em desviar aquele dinheiro para um iate novo em Escarpas. Precisavam ver sua neta brincando na sala de espera de um hospital cheirando a vômito, antes de pensarem em gastar o dinheiro da senhora com prostitutas e hotéis luxuosos. Precisavam conhecer a senhora e o que a senhora passa, antes de serem contra ou a favor de impeachment, antes de despejarem opiniões políticas no Facebook e dizerem o que é bom ou ruim para a senhora.
                Perdoa-nos, Dona Adélia. A gente não sabe nada do que diz. A gente sequer sabe o nome da cidade da senhora, quanto mais a realidade de quem mora lá. Só pra senhora não se sentir muito ofendida, saiba que a gente chama quem mora na favela de “eles” e pergunta pra quem mora nela se não é perigoso viver “lá”, como se “eles” vivessem em outra cidade.
                Que o seu Criador, que vê essas situações todos os dias, continue sustentando a senhora e todos os iguais a senhora. Que Ele sustente também os médicos, que fazem mais de 60 atendimentos em um plantão para não deixar ninguém pra trás, e as enfermeiras, que dobram serviço por falta de efetivo e ainda assim não perdem a empatia.

                A van de Dona Adélia finalmente chegou. Ela e a menina entram aliviadas e partem rumo a cidadezinha.

                “- Sabe, vó... Eu gosto muito da cidade, mas eu prefiro ficar com a senhora”. 


quinta-feira, 17 de março de 2016

RENASCERÁ- PARA NÓS, OS DO MURO

RENASCERÁ - PARA NÓS, OS DO MURO
Nós, os que sobramos. O remanescente. Os cegamente otimistas.
Nós, os que acreditávamos até o último segundo que melhor uma democracia manca do que uma polarização erguida.
Nós,bandidos segundo um lado e elitistas por outro. Nós, os que ficamos em cima do muro, que ora não fomos nem pra esquerda nem pra direita e ora fomos para os dois lados. Os fracos, os incapazes de decidir entre as opções disponíveis. Nós, os que nos reservamos o direito de não ter opinião, simplesmente por não ter uma, mas descobrimos que na "era da opinião" isso é proibido.
Nós, que em meio à guerra entramos em coma, ficamos letárgicos, estáticos, atônitos, mais do que ambos os lados e assistimos ao combate incapazes de combater. Os covardes, que achavam que podiam ser espectadores, sem saber que essa posição seria ainda mais difícil de manter.
Nós, os que sentíamos inveja dos decididos, dos de opinião formada, mas que quando abríamos a boca não emitíamos som algum.

Nossa esperança era imbatível, mas nos últimos dias convalesceu. Descobrimos que nem sabíamos qual esperança era essa, mas críamos num caminho alternativo, ainda que desconhecido.
Nós, os que sobramos, ainda esperamos que amanhã tudo não passe de um pesadelo, mas nos regozijamos por uma nova esperança esquecida, na justiça que brota da terra.

Sofremos um golpe. Um golpe mais forte que de faca, pedra e revólver. Não ficamos surpresos, mas o choque em nós doeu mais forte. Pegou em cheio nas memórias, acertou o âmago de onde ficava o copo meio cheio. Não conseguimos comemorar.

Mas ela renascerá. Como o sol que se levanta a cada manhã, ela se erguerá ainda mais forte. Correrá neste rio de justiça que esperamos que corra nessa terra seca e sedenta.

E quando a luz finalmente brilhar, sairemos do coma em que nos encontramos. As coisas ganharão algum sentido. Nos perdoaremos por não termos combatido e seremos perdoados.

Ela convalesce, mas é imortal.

Neste instante, o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhará.

No alento do Pai Nosso entoado por Adélia Prado. Nas palavras mansas da brasileira do sertão nordestino. No sorriso do menino que amanhã vai à escola.

Ela renascerá.