quarta-feira, 10 de março de 2010

A bizarrice da normalidade

Hoje, um fato muito inusitado ocorreu.
Após enfrentar um engarrafamento na Av. do Contorno, meu ônibus finalmente chegou à Rua da Bahia. Paramos debaixo do viaduto Sta.Tereza. Sempre ocorrem coisas bizarramente normais naquele lugar, e hoje não foi diferente.
Havia um homem deitado no chão (Bizarramente normal).
Haviam dois moradores de rua : um em uma cadeira de rodas e outra “pilotando” essa cadeira (Nada demais...)
Os dois estavam visivelmente alcoolizados (Nada surpreendente...).
Mas, de repente, algo me tirou da minha bizarra normalidade.
Havia uma mulher sentada ao meu lado. Quando essa mulher entrou no ônibus, pensei em cumprimentá-la, pois sabia que já a tinha visto em algum lugar. Mas minha bizarrice humanóide não me permitiu fazer isso.
Essa mulher assistiu a mesma cena que eu, debaixo do viaduto. Havia enfrentado o mesmo engarrafamento e se atrasado pra um compromisso do mesmo jeito que eu.
De repente, essa estranha criatura disse algo que fez todas as cabeças do 8001 se virarem pra ela: “-Nossa, eu estou emocionada com essa cena.” O que??? Como assim??? De onde saiu essa mulher??? Dois bêbados rindo de sua própria tragédia???
“- Duas pessoas, numa situação tão difícil, se divertindo assim...Tem gente que nem bebendo se comporta dessa maneira...Que amiga!!!Estou realmente emocionoda... Quantos não tem uma amiga assim??Pessoas que têm tudo , não tem uma amiga assim” (ela se referia à piloto da cadeira de rodas). A essa altura, todo o ônibus já havia parado pra ver a cena.
Que vergonha senti de mim mesma!( A vocês ,fariseus: Não estou julgando a atitude dos moradores de rua!). Fiquei constrangida com a visão que aquela mulher teve da cena. Enxergou amizade, amor, alegria em uma cena tão desastrosa! Depois que consegui ver a beleza da cena, ficamos observando e conversando.
Foi engraçado o quanto aquela mulher soou estranha! Senti os olhares de todo o ônibus se voltando para o nosso diálogo. Era como se alguém raro no mundo estivesse ali, parecia que todos sentiam vergonha também...No planeta Terra, um ser humano, no meio de um engarrafamento, assistiu a dois mendigos alegres e se emocionou, levando toda uma plateia de umas 30 pessoas cansadas do trabalho,ou indo pra escola, a se emocinar também . Ainda me pergunto se isso realmente aconteceu. Ninguém a aplaudiu, ok?! Ninguém ficou olhando com cara emocionada. Foi algo mais sublime, ainda mais tocante. Senti , pela primeira vez, todo um grupo de pessoas que nunca se viram, com um mesmo sentimento
Segundos após o que ela disse, pude constatar o porquê de tanta sensibilidade,pois reconheci aquela mulher. Era uma atriz e esposa de meu antigo professor de teatro.( A sensibilidade é justificável nos atores. ) Falei com ela que a havia reconhecido, e no pequeno trecho engarrafado do início da Rua da Bahia até a Afonso Pena pudemos conversar. Falamos sobre teatro e sobre minha nova carreira. Falei sobre como o curso de teatro havia me feito crescer culturalmente. Naquele bom mineirês, desejei um abraço ao meu antigo professor e nos despedimos.
Por que estou contando isso pra vocês? Porque gostaria de ter amigos anormalmente bizarros. Amigos que conseguem tirar o melhor do ser - humano e não a parte repugnante. Será que é obrigação somente dos artistas, ver a vida dessa maneira? Nessa bizarrice da normalidade que vivemos, nós cristãos nos ACOSTUMAMOS a ver determinadas coisas e essas coisas pra nós passam a ter valor nenhum.

Sejam bizarros amigos!

Sejam pessoas que se importam com o outro, que cumprem aquele mandamento “ama ao próximo como a você mesmo”.

Tem muita gente no mundo, fazendo diferença na vida das pessoas, mesmo sem um relacionamento íntimo com Deus. E nós??? Quando iremos atrair os olhares dos ônibus?? Quando, nós, crentes, iremos ser considerados estrangeiros nessa terra que só sabe reclamar e murmurar? Geralmente , somos os primeiros a aceitar a bagunça.

Mais uma vez, repito: Sejam bizarros!

Oro para que sejamos odiados pelo mundo amanhã! Que amanhã as pessoas sintam raiva por não termos reclamado do engarrafamento! Que as pessoas se queixem por não tirar o nosso humor mesmo com “tanta coisa ruim acontecendo” (tenho escutado isso TODOS OS DIAS!).

Fujamos dessa bizarra normalidade que nos cega para o propósito de nossas vidas!

Amém!

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