sábado, 28 de julho de 2012

Luto

Era pra ser mais um sábado normal, um dia feliz e com algumas coisas bacanas. Não fosse o fato do meu pai ter me dito na hora do almoço que houve um acidente com um avião da Vilma Alimentos. Gelei na hora, mas não procurei saber nada sobre o assunto. Agora a noite veio a confirmação de uma muito triste notícia: o piloto do voo era o Jair, querido instrutor de Navegação Aérea e outras matérias na Escola de Aviação em que estudei.
Meu coração se junta neste momento aos corações enlutados pelas vítimas. Não só pelo Jair, mas por todos que ali estavam. A morte deles não ganhou destaque como outros acidentes aéreos, pois não houve sangue derramado suficiente para a imprensa, mas tenho certeza que o vazio que fica com a ausência dessas pessoas é imensurável.

O Jair foi uma das pessoas que me deu asas para voar. Por causa dele, fechei a prova de Navegação Aérea na Anac. Eu que mal sabia a teoria dos fusos horários. Tenho certeza que além de grande instrutor, era um grande homem. Era atencioso, solícito e paciente com os alunos. Tinha grande interesse em nos fazer aprender, mesmo que provavelmente não utilizássemos aquilo na profissão.

Quem foi ou é tripulante sente os acidentes aéreos de maneira diferente. A gente sabe o quanto é árduo pra alguém chegar e se manter nesta posição. Sabe dos riscos, dos desafios e das dificuldades que enfrenta diariamente. Sabe das renúncias, das ausências e dos medos que faz parte dessa vida. É um heroísmo anônimo, que ninguém nunca vai reconhecer e se algo der errado, a culpa sempre recai sobre o tripulante.
Pois saibam que pra quem já voou, a coisa é diferente. A gente sabe o que vive, o que vê, o que passa. Posso garantir que ninguém imagina. Ninguém imagina as politicagens, a ganância e o descaso em que vive a Aviação Brasileira. E no meio disso tudo, só é exigida a perfeição. Não há espaço pra falhas. Na Aviação não dá pra acordar dizendo " é só mais um dia..., é só mais um voo". Vivemos em alerta constante, em situações de muito estresse e condições adversas..
Eu já não tripulo mais pra uma companhia aérea, mas não posso me considerar só mais uma passageira.
Tem uma frase que diz que "uma vez que você tenha experimentado voar, nunca olhará para o céu da mesma maneira", e eu acrescentaria "nunca entrará num avião da mesma maneira".

Sei que esse texto está criando outro rumo, confesso estar muito abalada e acredito  que   muita coisa não faça sentido pra quem lê, mas o que quero dizer é muito simples: tripulantes existem. Neste exato momento, em que você lê esse texto, existem centenas de pessoas no céu do Brasil, talvez passando até por sua casa. Por causa deles, esse país se movimenta e se conecta, mas eles só são lembrados quando cometem algum erro. 
Dificilmente o nome do Jair será divulgado em algum jornal. Algumas vezes por questões de investigação, mas na maioria das vezes, a tripulação nunca é lembrada pela imprensa. É como se o avião tivesse feito tudo sozinho. Quando o nome dos pilotos é citado, geralmente é no lugar de culpado. Ninguém está interessado em saber quantos pousos e decolagens o piloto fez em segurança, de quantas emergências saiu e do quanto renunciou pela carreira.  "Como termina é que conta", eles dizem.

Pois eu discordo. Fica o meu respeito e admiração por este homem que me ajudou a criar asas. Fica também a minha oração por aqueles que sofrem com as perdas.
Peço a quem lê esse texto que ore também. 
Os acidentes aéreos nos chocam e nos deixam paralisados por vários motivos. É um golpe abrupto, que nos faz repensar sobre a fragilidade da vida.
Que Deus, que já sabia o tempo dessas pessoas, mas que também deu a elas o privilégio de viver, encha de paz, graça e consolo cada coração.
  











 

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