terça-feira, 21 de agosto de 2012

Apareço, logo existo

A frase que dá título a este post é uma distorção do célebre cogito de Descartes ("Penso, logo existo). Meu líder na igreja mencionou-a no final de semana e eu decidi pesquisar sobre o assunto. Encontrei excelentes artigos relacionados ao tema (Indico:http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/57/artigo213501-1.asp) e tenho me aprofundado nessas questões.
Eu não descobri quem foi o primeiro a dizer esta frase e a teorizar o assunto, mas penso que ninguém definiu tão bem a sociedade contemporânea.

Vivemos em uma época na qual o que não foi mostrado, não aconteceu. Isso não foi nenhum filósofo quem me disse, mas é a minha experiência pessoal. Se ninguém sabe como está sua vida, você não está vivendo e se está vivendo, deve ser uma vida muito sem graça. Dentro dessas perspectivas, brinquei, dizendo o seguinte: No mundo de hoje, uma pessoa sem Facebook é uma pessoa sem face. Pode parecer exagero esse irônico trocadilho, mas deixe-me explicá-lo:
[Apenas uma ressalva antes: refiro-me ao Facebook por se tratar da rede social massiva que está em evidência, mas acredito que muito em breve aparecerá uma forma das pessoas aparecerem ainda mais. (Espero não estar viva quando as pessoas começarem a se filmar no banheiro).]

Por mais que eu explique e exponha os motivos que me levaram a sair desta rede social, muita gente não consegue conceber esta ideia. Essas pessoas enumeram vários pontos positivos e dizem não ser possível mais viver sem um perfil virtual. Por um lado, elas estão certas e adiante direi porquê. O problema é que, quando digo que considero a exposição demasiada um problema, muita gente sequer entende o sentido de superexposição. (Para conhecer minha opinião, vide texto "O limite da Exposição" -http://detudoquepodeserbelo.blogspot.com.br/2010/11/o-limite-da-exposicao.html). Ninguém conhece mais o limite para se expor - ou melhor, expor aquilo de bom que acontece em sua vida, porque são poucos os maníacos-depressivos que postam coisas negativas de si mesmos. 
Além deste fator, a futilidade e a superficialidade presente nas redes sociais já estavam me levando ao grau mais profundo de antipatia. O que era pra aproximar pessoas, virou instrumento de segregação, preconceito, mentiras, fofocas, relacionamentos rasos e falsidade, além de uma infinitude de inutilidades. 

E nessa mistura de ego e vaidade, todos buscam incessantemente mostrar que "existem". Li uma matéria na revista "Época" , falando da nova moda de fotografar o(a) parceiro(a) enquanto este(a) dorme. Sim, fotografar o parceiro sexual dormindo e postar numa rede social, não importando a quantas horas você conheça esta pessoa. Nessa mesma matéria, um psicólogo declara que, pessoas que assim o fazem, são pessoas com baixa autoestima, que precisam mostrar o que estão fazendo para se afirmar como sujeitos. Nada mais triste e deprimente, e mesmo que alguns não tenham chegado a este ponto, sei que possuem a mesma motivação.

Não quero aqui, condenar o uso das redes sociais. Como falei antes, as pessoas estão certas ao citarem seus pontos positivos e confesso estar cada vez mais ciente da dificuldade de viver sem elas. Reencontrei muitas coisas que havia perdido, ao deletar o Facebook, por causa da superficialidade com a qual estava encarando relacionamentos, mas ao mesmo, acabei punindo muita gente bacana, inteligente e sensata, que eu gostava de me relacionar e que tinham no Facebook a única forma de se relacionar comigo. Agora na faculdade, vejo que a necessidade de um perfil virtual se torna ainda maior, por ser esta a forma mais fácil de contactar as pessoas. Quando penso que vou viajar, também me lembro das facilidades de comunicação por uma rede social. E o que dizer dos eventos (não só festas) e outras programações que só fico sabendo porque um filho de Deus se lembra de me avisar?!


Enfim, para alegria e triunfo de muitos, eu estou repensando meu divórcio com o Facebook. Mas quero aqui, propor uma nova forma de relacionamento: Um relacionamento que não sufoque, não intimide, não obrigue. Um relacionamento maduro, sensato e equilibrado. Um relacionamento que não tenha no ego o seu maior motivo. Um relacionamento que ajude a criar, não destruir laços. Um relacionamento saudável, que não atropele todos os outros. 

"As melhores coisas da vida, acontecem quando ninguém está vendo", já disse alguém uma vez. 
Aquilo que é precioso, a gente guarda com cuidado, pra que não se perca. 
O que parecemos aos os olhos das pessoas não é necessariamente o que somos, portanto, aparecer não aumenta ou diminui o fato de que você existe. Voltemos a ser o indivíduo pensante de Descartes, não dando prioridade a mostrá-lo para as pessoas. 

Concluo com um texto de Fernando Pessoa, convidando você a desvendar a beleza de ser.
Ser e nada mais.

'Pensaste já quão invisíveis somos uns para os outros? Meditaste já em quanto nos desconhecemos? Vemo-nos e não nos vemos. Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si. As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrágios do nosso entender."




Nenhum comentário:

Postar um comentário