segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Contos de Aeromoça (1)

Se eu fosse contar todas as histórias que vivi durante este 1 ano decolando e pousando por este país, teria que escrever um livro. Como não penso em fazê-lo agora, decidi transcrever aqui alguns contos da minha época de "aeromoça".
Essa profissão fascina muita gente pelo mistério que traz, por ninguém saber de onde vem nem para onde vai  aquele ser que só aparece no avião.
Cheguei a postar o fato a seguir no Facebook, mas como agora o escrevi em forma de conto, acrescentei mais alguns detalhes.

Fica o diálogo com um dos passageiros mais doces que já conheci:

Mais um "madrugadão" na proa e a tripulação já esgotada.
 Cinco dias de voo noturno, o corpo fadigado e a vontade de chegar em casa perdendo espaço para a vontade de dormir. O voo seguia como um típico voo noturno: Avião escuro, passageiros apagados, chimarrão e muito café na *galley pra manter-mo-nos acordados e algumas luzinhas acesas, delatando aqueles remanescentes que se recusam a fechar os olhos dentro de um avião.
Eu estava sentada na **estação dianteira sozinha, cumprindo meu dever apesar do sono, e observando aqueles que estavam acordados, quando de repente, alguém me chama na primeira fileira:


"-Moça, você é aeromoça?", perguntou-me uma criança. 
"-Sim, eu sou...", respondo sem dar muita importância ao título da profissão. 
"-E vai ser aeromoça pra sempre?"
"-Eu não sei, acredito que não..."
"-Porque quando você for mãe, não vai poder ser aeromoça mais, né..."
"Não sei...Algumas aeromoças conseguem, mas eu acho que vou querer ficar mais perto do meu filho.."
"Ahh, tá..."
O semblante dele se torna pensativo e depois, numa espécie de constatação, ele acrescenta:
"Aí você vai ser normal de novo, né..." 


Eu não faço ideia do que representa a figura de uma comissária para uma criança. Eu sempre busquei ser o mais gentil e acessível possível , porque realmente amo estar perto delas e já trabalhei na Educação Infantil, o que pra mim foi um dos melhores aprendizados.
O que mais me encantou na fala daquele menino foi que, pra ele, eu realmente era um ser diferente.
Numa profissão em que a gente está tão acostumado a receber reclamações, xingamentos, grosserias e outras espécies de falta de educação, o deslumbramento de uma criança se torna mais do que um presente. É um trabalho que nem as pessoas mais próximas a nós valorizam.

As minhas melhores histórias na Aviação vieram de pessoas simples, com coração de criança. Gente que me presenteou com coisas que dinheiro nenhum pode pagar. Gente que acha que eu é que dei algo a elas, enquanto elas é que me deram valores preciosíssimos.

Gostaria de ver a reação dessa criança ao saber que agora eu sou "normal".
Eu gosto de acreditar que mesmo sabendo disso, ele me veria como "aeromoça" e ainda teria o mesmo brilho nos olhos pra falar comigo.
Mais que isso... me daria o mesmo brilho nos olhos que me deu naquele dia.

 
*galley: a "cozinha" do avião, aquele espaço onde ficam os compartimentos (S.Us) e carrinhos (trolleys), na parte dianteira e traseira.

**estação: estação é o nome dado ao local ocupado por comissários no avião.



4 comentários:

  1. Linda a sua percepção e interpretação diante desses detalhes e observações tão (aparentemente) simples. Obrigado por me passar essas sensações tão interessantes!

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  2. Freeed, obrigada você por ouvir minhas complexas filosofias!

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  3. Esse texto nos faz lembrar que para voltar a ver certas belezas é necessário enxergar com olhos de crianças... Muito bacana! (E não sou Woody Allen)

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    1. Com certeza, Gusti. A verdadeira beleza está nos olhos delas...
      Obrigada pelo comentário! (Isso foi tipo um Oscar! haha)

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