domingo, 2 de setembro de 2012

Contos de Aeromoça (2)

4h00min - O despertador toca. Ela se arruma e toma o café.

Como se estivesse no piloto automático, o 
carro segue para o aeroporto. Ele já sabe o caminho de cor. 
Ela estaciona e vai para a fila do check-in. É só mais uma no meio da multidão de passageiros.
Faz o check-in e escuta ao lado alguém dizer: "Faço parte". O coração que até então estava se controlando, começa a chorar copiosamente por dentro. Ao lado dela, uma tripulação se apresentava e dizia os tão comuns: "Meu nome é Fulana, faço parte da sua tripulação". Milhares de lembranças recentes vêm à sua mente e ela engole o choro, pensando em como era possível estar vivendo uma realidade tão diferente em tão pouco tempo. 
Ela segue pra sala de embarque. Já ia passando direto pela segurança da Infraero, quando o rapaz assovia e diz: "Ei, moça, seu cartão de embarque!". Ela volta e se lembra que em seu peito não há mais nenhum crachá e que existem regras diferentes agora. Entra na sala, vê antigos colegas de empresa e pensa em cumprimentá-los de longe, mas não há mais nada que a identifique como tripulante, portanto pareceria uma oferecida. 
Senta-se para esperar a chamada e espera todos os passageiros embarcarem primeiro. Depois se lembra de ter lugar marcado no voo e de não mais precisar esperar. 
Entra no avião. Em 5 segundos localiza todos os equipamentos da galley dianteira e verifica que a escorregadeira da porta 1Romeo está desconectada. Tem vontade de ela mesma se abaixar e conectá-la e pergunta-se mais uma vez se é seguro voar por aquela empresa. Lembra-se de que o voo não é dela e responde ao bom dia do comissário do voo.
O avião taxia e cada passageiro já está entretido demais para prestar atenção nas orientações de segurança, a não ser ela, que compara os procedimentos de uma empresa e outra.
Chega o momento de uma das sensações que ela mais ama na vida: a potência do motor para decolagem. Numa fração de segundo ela lembra de tudo que pode acontecer e como deve agir. "Será que ele armou a escorregadeira?". 
O avião decola e o voo segue tranquilo- para todos os outros. A cada chamada de passageiro, comissário ou cabine, ela levanta um pouco o corpo num impulso de atender. 
Lembra-se de todas as histórias, das centenas de voos, das milhares de pessoas que passaram por sua vida e começa a chorar. O passageiro ao lado diz a ela que "turbulência é normal nessa rota, então não precisa ter medo". Ela dá um sorriso e pensa nas ironias da vida. 
Resolve o que tem que resolver no Rio. Volta pra casa.
Agora vive normalmente.
Normalmente, desde que não escute o barulho de uma turbina de avião passando.
Normalmente, desde que ninguém pergunte o que ela fazia antes da faculdade. 
Normalmente, desde que não fique olhando demais pro céu. 
Normalmente, desde que ninguém pergunte como era ser comissária.





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