domingo, 23 de setembro de 2012

Na janela lateral

Tem uma vista, da qual eu sempre falo, que pra mim é a vista mais importante do mundo, e olha que eu já vi muita coisa: Já tive a vista incrível da Chapada dos Guimarães, da Serra do Cipó, do impressionante Stonehenge, do Bin Ben, de Ouro Preto, da floresta Amazônica, da Cordilheira dos Andes... Já passei por muitos lugares e tive vista privilegiada de muitos.  Mas nada que mexesse tanto comigo como a da janela lateral da casa minha avó. Foi aqui que tudo começou e foi essa vista que inspirou o texto que você agora lê.
Foi aqui que comecei a viajar para outras cidades, outros países. Foi essa vista que me inspirou a aprender inglês, juntamente com as músicas que eu ouvia enquanto a observava. Foi essa vista que me fez ter vontade de conhecer outras vistas. E é também ela, que me lembra da passagem do tempo e de todas as coisas que já aconteceram na minha vida.

Aparentemente, não há nada de especial. Garanto que se você a visse, não teria metade dos sentimentos que tenho. É só uma janela de uma casa alta e que na verdade mudou com os anos. No início, quando minha avó mudou pra esse bairro, era uma janela grande, de vidro e ferro, que tinha uma grade do lado de fora, na qual minha vó me sentava pra ver a rua. (Acho que a culpa é dela por eu gostar tanto disso).
Depois, foi substituída por uma grande janela de madeira, daquelas que dão cheiro de madeira molhada quando chove. (Se você acha que é redundância dizer "cheiro de madeira molhada" é porque não conhece esse cheiro. Só quem conhece, sabe a delícia que é). Essa janela foi moda há uns anos atrás e tinha uma parte pra colocar retângulos de vidro na parte interna. Os vidros nunca foram colocados e a janela foi empenando. Com o passar do tempo, tivemos que começar a amarrá-la em dias de chuva e muito vento, porque ela não permanecia fechada. Bateu tanto com a chuva, que quase caiu e então foi substituída pela atual: uma grande janela transparente de vidro que, se eu não tomar cuidado, deixa o vizinho me ver trocando de roupa.

Não foi só a janela que mudou com o tempo: Aumentou o número de prédios no fundo da paisagem (paisagem essa que eu nunca descobri de que bairro é), diminuiu o número de árvores (inclusive da minha rua) mas, a cada dia, uma árvore  vai se erguendo debaixo dessa janela. Essa árvore me lembra que o tempo passou e não só a paisagem mudou, mas a observadora, que tudo isso lhes conta, também.

O vento gelado que agora bate em meu rosto me diz não só que vai chover, mas me lembra da menininha que ficava ali horas sonhando, desejando poder voar.
Na janela lateral, eu planejei a mulher que sou hoje. Apesar de na época não haver qualquer vislumbre de que meus sonhos se realizariam, eles se concretizaram.
Eu sinto muitas saudades dessa menina. Ela era muito mais esperançosa do que a mulher que se tornou, mesmo quando não havia qualquer perspectiva de que conseguiria.

A mulher que hoje sente o vento bater em seu rosto, não consegue sonhar como antigamente, mesmo tendo conseguido tudo que ali tanto desejou. Talvez porque seus sonhos eram tão grandes que se tornaram maiores do que ela mesma.

"Eu acho que vai chover", minha avó diz.
E se vai chover, coisa que há dias atrás parecia impossível, outros sonhos também virão para essa moça de mão no queixo, que observa a vista da janela lateral.  

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