domingo, 25 de novembro de 2012

Minha doce Ouro Preto


A ideia de ir pra Ouro Preto nasceu em um lugar bem distante de terras mineiras.

Num primeiro momento, eu só pretendia ir pra Londres, na viagem pra Inglaterra, mas não resisti e fui para uma das cidades da qual Jane Austen sempre falava: Bath. (Acho que já falei um milhão de vezes sobre Bath, mais até do que Londres). A Jane é que me lembrou do valor daquilo que está fora da cidade. Enquanto estava em terras inglesas e conhecia o lado histórico daquele país, pensei: "Por que não faço isso no Brasil?Tenho tantas cidades históricas pertinho de mim e não vou a lugar nenhum...". 

Voltei pro Brasil com a ideia fixa de passear pelas cidades históricas de Minas. Eu já tinha ido a Ouro Preto com a escola, mas isso já fazia tempo e eu não tinha feito muita coisa. Passei a insistir com um monte de amigos pra irem um final de semana comigo, no entanto esses planos nunca davam certo. Nunca ninguém podia. Pensei em ir sozinha, mas aí eu não podia.
Então finalmente chegou o momento: Eu e duas amigas, Bianca e Linda (que é holandesa e linda até no nome) decidimos encarar essa aventura. Fica aqui, o breve relato dessa jornada: 

A intenção era sair cedo de Belo Horizonte, mas como houve um desencontro, só embarcamos no ônibus das 13h00. A viagem que deveria durar duas horas, durou quase quatro, porque nos deparamos com um grande engarrafamento na rodovia e ônibus fazia duas paradas antes de chegar em Ouro Preto. A fome já estava quase nos matando a essa altura, mas a perspectiva de comer comida mineira acalmava o meu estômago. Ao chegar, descobrimos que o Google mentiu e que o albergue ficava a mais de 20 minutos de caminhada. Paguei um táxi que cobrou barato para nos levar até lá. Descemos uma ladeira tão grande, que achei que fôssemos chegar no núcleo da Terra. Ao chegar no albergue...Surpresa! Não haviam confirmado nossa reserva e o hostel estava lotado. 



Fome, cansaço, sem mais tempo de fazer nada... Começamos a subir a ladeira com mochilas pesadas e a Bianca com sua big mala. O resultado não poderia ser diferente: Minha amiga, Bianca, devido às circunstâncias, ficou mais branca que cera e começou a passar mal. Minha cabeça doendo de fome, no meio de uma ladeira-beco, sem ninguém pra pedir ajuda. Parecia o dia perfeito para nada dar certo. Após alguma água e uma bala para aumentar a glicose (experiência de comissária), conseguimos chegar no topo de novo. Achamos um albergue em que fomos recebidas com muito carinho. Para noooossa alegria, lá funcionava também um restaurante e o dono pediu que a cozinheira fizesse uma macarronada pra gente. Como disse a minha desfalecida amiga: "A melhor macarronada da minha vida". O albergue é simples, mas nos atendeu muito bem. Beeem mais perto do centro, sem necessidade de fazer escaladas e com um dono muito simpático, Washington, que gentilmente tentava falar inglês com a Linda e fazia o possível para nos agradar.

Após sair do estado hipoglicêmico e recuperar as forças, fomos para a cidade aproveitar o tempo que tínhamos. E aqui vem a lição mais importante dessa viagem: quando a gente está com pessoas especiais, tudo é especial. Arrume parceiras ou parceiros de viagem legais e tenha certeza que ainda que tudo dê errado, será ótimo!
Aproveitamos muito, tiramos fotos, fomos à feirinha, conhecemos a Aparecida, compramos lembrancinha, comemos "joelho de moça" sentadas na Praça Tiradentes, ensinei a Linda a fazer brigadeiro, a Linda fez um brigadeiro maravilhoso, comemos pizza, ouvimos música boa, sentimos o clima de Ouro Preto e mergulhamos no lado histórico desse país. E isso foi só o primeiro dia.

Hoje, acordamos cedo, o Washington trouxe bolo de chocolate pra gente e partimos para conhecer os museus. Mais uma surpresa, não tão surpreendente assim em Ouro Preto: Chuva e neblina. Sombrinhas a postos (odeio sombrinhas), fomos para a cidade tentar visitar os museus. Outra surpresa: a maioria do que queríamos ver só abria ao meio dia. Voltamos a feirinha, não compramos nada e partimos para a Casa dos Contos. Nesse lugar lindo, vimos uma parte não tão bonita da nossa história: uma senzala, onde estavam expostos inúmeros instrumentos de tortura e de trabalho da época. Aqui paro para uma reflexão: Enquanto pisava naquelas pedras frias, aonde seres humanos dormiam, e via toda aquela atrocidade, pensei: "Como as pessoas podiam achar isso normal? Como é possível terem permitido isso por tanto tempo? Como um ser humano pode ser julgado apenas pela cor de sua pele? Como alguém que ainda nem nasceu pode já sofrer preconceito?". Isso me fez pensar nos marginalizados do nosso país. Será que daqui há algumas décadas, nossos filhos também não irão se perguntar como permitíamos tantas atrocidadades?! Como permitíamos que seres humanos fossem tratados como animais?! Os preconceitos ainda existem e estão tão incrustados no DNA brasileiro como a nossa tendência de mascarar a realidade. Enfim, só mais uma reflexão que precisava compartilhar.

Nesse museu, também conheci meu grande amigo Teodolito. Minha tecla SAP estava ligada, porque estava falando em inglês e português ao mesmo tempo, (o que é algo realmente embaraçoso para o cérebro) quando li o nome Teodolito numa mesa. Nem acabei de ler a frase e soltei a pérola: "Who is Teodolito?". O rapaz do museu me ouviu e gentilmente respondeu: "Teodolito é o nome desse aparelho topográfico aí em cima da mesa". Não preciso nem dizer o tamanho da manota. Quando eu vi a preposição "no" antes de teodolito, brinquei com o guia: "Nossa, achei que era você...". Gargalhada geral, inclusive da Linda, que nem fala português. Eu sempre tenho que dar uma manota e acho que essa foi a maior dessa viagem.


Ao sair da Casa dos Contos, visitamos mais alguns lugares, a Linda encomendou um desses retratos à mão e fomos almoçar no mesmo restaurante que eu já almoçara duas vezes quando iai com a minha escola. Comida mineira, dez quilos a mais e ainda passamos numa loja deliciosa, chamada Puro Cacau, a qual recomendo a qualquer ser vivente dessa Terra e compramos um monte de chocolates, que mais parecem manjares do céu.  A essa altura, já era meio dia e o Teatro Municipal (ou Casa da Ópera) já estava aberto. 


Pra mim, esse foi um dos momentos mais marcantes da viagem. Pra quem não sabe, eu já fiz teatro e esse é um dos melhores lugares do mundo pra eu estar. Esse teatro é o mais antigo das Américas em funcionamento e já deu espaço para personalidades de todas as épocas. Eu amei o cheiro da madeira - e o barulho dela, o estilo de casa de ópera, os camarotes e toda a história por trás desse prédio. Eu sempre viajo no tempo nesses lugares e meu mundo se torna musical e colorido.
Enquanto tirávamos fotos no teatro, três senhoras simpaticíssimas adentraram e começaram a "sacar fotos". Duas delas eram argentinas e uma brasileira. As duas animadíssimas começaram a dançar em cima do palco e eu não pude resistir: Pedi que me ensinassem aquilo que estavam dançando. E ali, no palco do Teatro Municipal de Ouro Preto, eu dancei "chacarera" com duas senhoras argentinas. Entrou pra série: coisas que eu jamais imaginei que iria fazer na vida.
São muitas as histórias dessa viagem e me faltaria tempo e espaço para escrever aqui. O que posso dizer, é que vale a pena mergulhar em aventuras que estão tão pertinho da gente. Foram dois dias que ficarão para sempre em minha memória. 
Agradeço a Deus por essa oportunidade e por ter me dado duas amigas tão especiais nessa aventura. Agradeço a Ele também por me ensinar que "quanto mais simplicidade, melhor é o nascer do dia"...





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