quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O Mozart de Bratislava

O nome dele não é Mozart, mas eu gosto de pensar que é.
Eu não sei se ele é de Bratislava, mas vou falar como se fosse, pois foi aqui que a gente se encontrou.

Eu estive em Viena alguns dias atrás e tive a decepção de não ouvir um concerto de Mozart ou de Vivaldi em um dos lindos teatros da cidade, mas não fui decepcionada a ponto de não ouvir música clássica na terra dos grandes compositores.
Enquanto estava em uma antiga estação de metrô, um senhor tocava violino maravilhosamente. Digo, maravilhosamente, segundo meu humilde conhecimento musical, porque pra mim não existe som mais lindo que o de um violino. Eu sempre noto essas pessoas e, ainda que para alguns seja tão trivial, ver alguém utilizando a música para tocar outras pessoas sempre me emociona.

Foi mais ou menos assim que encontrei o "Mozart de Bratislava".

Era segunda-feira e eu estava absolutamente triste por causa da tragédia em Santa Maria. Não conseguia sorrir, por mais que minhas colegas de quarto se esforçassem em fazê-lo e o dia estava completamente cinza pra mim. Saí de casa na tentativa de me distrair e conseguir aquietar a alma, mas ninguém compactuava dos meus sentimentos, o que me deixava ainda mais triste. O mundo continuava girando, enquanto mais de duzentos e trinta lindos jovens partiam, sem qualquer chance de se despedir. Sem falar nas milhares de pessoas que sofriam e choravam por seus amados.

Meu coração não podia aguentar.

Foi quando ouvi algo que parecia compactuar com meus sentimentos.
Um som triste, distante, profundo...

"Onde é esse som?". . perguntei em inglês para as pessoas que estavam comigo. Ninguém respondia ou parecia entender o que eu estava falando. Talvez eu tenha falado em português... Talvez nossos corações estivessem em sintonias diferentes...

"Onde é esse som?", perguntei novamente. Ninguém realmente ouvia.
Comecei a olhar em todas as direções, buscando com os olhos e os ouvidos aquilo que tão bem correspondia o que eu sentia.

Foi então que o vi, na entrada de uma espécie de passagem subterrânea, tocando seu violino.

Um senhor simples, com luvas gastas e olhar melancólico.
Observei-o de longe, antes de me aproximar. Ninguém o notava ou parecia ouvir o que eu ouvia.

Ele era invisível, assim como meus sentimentos naquele momento.

Tentei imaginar sua história, como havia aprendido a tocar tão bem e porque estava ali. E então decidi que pensar em tudo isso era desnecessário.

Tão invisível quanto meus sentimentos era a profundidade do som que saia através dele.

E um lugar-comum mais que clichê, veio à minha mente: "No fundo, somos todos humanos, feitos da mesma matéria, nascidos do mesmo pó".

Não importa de que parte do mundo viemos, em qual cultura nos formamos, somos seres profundos, dotados de sensibilidade que vai além da métrica e, ainda como humanos, somos capazes de tornar essa sensibilidade invisível e desprezá-la no mais sincero gesto de ingratidão.

Não me lembro que música ele tocava e ainda que me lembrasse, meu conhecimento musical me impediria de saber o nome.
Só sei que tocou minha alma.

Aproximei-me, coloquei a moeda na capa do violino e pedi para tirar uma foto.

Nos dez segundos que transcorreram nessa ação, ouvi em eslovaco e em inglês, com o mais profundo olhar: "Obrigado".

Obrigada a você, senhor Mozart, por compartilhar dos mesmos sentimentos invisíveis que eu.




4 comentários:

  1. Se eu disser que me comovi com o texto não vai soar estranho, né? Eu me emocionei, num mundo rápido demais onde as pessoas renegam até a sensibilidade ler esse teu texto me tocou, não sei se da mesma forma que a música dele te tocou, mas ainda de uma forma bonita e reconfortante.

    www.eraoutravezamor.blogspot.com

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  2. Mayra, não tem alegria maior do que essa de comover alguém com um texto. Você captou exatamente a mensagem que queria passar. Fico muito feliz por ter te tocado e agradeço por ter lido o texto!
    Tô amando o seu blog e da Marie também! Textos maravilhosos!
    Que coisa boa poder compartilhar emoções com vocês!

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  3. Hoje as coisas estão um tanto nebulosas, não sei se só pra mim, ao que parece, não superei os últimos acontecimentos. A unica coisa que me preencheu hoje, foi a música, não as letras, nem palavras, não me permiti traduzir simultaneamente o que ouvia, hoje, só hoje, a unica coisa que me bastou foi a melodia, que me apaziguou, essa que é a mesma em todo idioma, que toca esse coração de carne, que sangra, pulsa contrai, mas não se priva de desfrutar da beleza de arranjos doces e serenos. Deve ter sido essa mesma coisa com você, talvez algo parecido.

    Beijo

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