terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Querido diário 1


          Da série: Era pra ser privado, mas decidi postar no blog.

           Estou escovando os dentes em frente ao pequeno espelho do nosso dormitório.
Na verdade, não tenho certeza se sou eu mesma que estou em frente ao espelho, não sei exatamente o que estou fazendo, muito menos sei aonde estou.
            Estou à quilômetros de distância, voltando mais uma vez pra janela que acompanhou minha infância. Sou a menina cheia de sonhos, que pensavam estar olhando para o nada, mas que na verdade estava olhando pra lugares mais distantes do que a mente adulta pode imaginar.
             Penso no mês que passou. Penso nas pessoas que passaram neste mês. Penso nos lugares em que tudo isso se passou. Penso que nem naquela janela eu fui tão longe.
            Uma mistura de nostalgia e vontade de voltar no tempo, só pra viver tudo de novo, vem ao meu coração e eu não consigo contê-la. Pra completar, meu celular está tocando "Yellow" do Coldplay. Putz. Tinha que ser agora? Não gosto de nostalgia. Me dá a impressão de que não sou grata pelo que tenho hoje e que estou com medo do futuro. Essa última impressão talvez seja verdadeira.
            Às vezes tenho a impressão de que estou numa espécie de coma. Fechei os olhos no Brasil no dia 30 de dezembro e desde então tenho sonhado com tudo isso. Em alguns momentos, acho que não sou eu que estou vivendo aqui. Deve ser alguém parecido comigo nas fotos.
            Lembro de aos 17 anos deixar o Ensino Médio com expectativas que perto do que estou vivendo são minúsculas.  Norminha, minha professora de Geografia, com quem eu compartilhava meus sonhos e que me dizia que eu podia ir longe se quisesse, ficaria surpresa ao saber onde estou.  Acho que nenhuma de nós imaginou que eu iria literalmente tão longe.
            Cá estou. Uma explosão de memórias do passado e cenas recentes. Lembranças de gente que passou pela minha vida há tanto tempo e que ainda tem efeito na minha história e de gente que acabou de entrar nela, mas já causa um efeito longínquo.
            Em poucos dias, voltarei para minha vida “normal”. As mesmas pessoas, os mesmos lugares. Pessoas que não viram o que eu que vi e pelas quais eu farei um esforço enorme pra transmitir com fidelidade o que vivi. Penso em como será quando contar a eles sobre as pessoas que conheci. Posso mostrar fotos de todos os lugares em que estive, mas não posso demonstrar a doçura, a gentileza, a inteligência, a simpatia e o amor de tantas pessoas que passaram por mim neste tempo.
           Sim. Essa aí em frente ao espelho, mexendo a escova de dentes há uma eternidade sou eu. O “eu” que eu não sei exatamente como chegou aqui, mas que está vivendo essa história surpreendente.

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