terça-feira, 19 de março de 2013

O dia em que tomei um "não"- Das coisas que eu nunca contei pra ninguém (1)

Estou com 18 anos e sou uma jovem recém aprovada para ingressar na profissão de comissária.
Após vários meses enviando currículos e pedindo indicações de todos os jeitos, recebo uma ligação da TAM, me pedindo para estar em São Paulo em dois dias.
Pânico total. Fazer as unhas, comprar passagem, conseguir uma pensão, arrumar a roupa e entrar no avião, rumo a São Paulo, sozinha, pela segunda vez.
Lá estava eu, aos 18 anos, chegando em São Paulo e sendo enganada pelo taxista que me fez pagar o dobro do necessário. Ao chegar perto do endereço, vontade de voltar pra casa. Uma rua não muito pacífica era o meu local de estadia, apesar de a casa parecer boa.
Entro na pensão. Gente de todos os estados do Brasil reunida, a maioria fazendo treinamento em empresas aéreas. Dois rapazes da TAM me incentivam, dizendo que vou conseguir. A senhora da pensão parece simpática, apesar de ter uma ocorrência policial pregada na parede da cozinha e de ter câmeras espalhadas por toda a casa.( Descobri algumas semanas depois que ela é absolutamente desequilibrada, apesar de não ter me causado problemas).
Algumas meninas chegam para o treinamento da GOL. A animação e as histórias delas me contagiam e por ser essa a empresa que eu sempre sonhei em trabalhar, meu coração sente um aperto.
É dezembro, mas ninguém pensa em outra coisa senão a nova fase de vida.
Chega o dia seguinte. Maquiagem, cabelo, roupa, tudo absolutamente impecável, como aprendido nas aulas de etiqueta. O filho da dona da pensão me leva de carro, cobrando também o dobro do necessário.

"Deve ser naquele prédio ali", ele me diz e arranca o carro com a típica lentidão paulistana. E falando em paulistana, o que dizer da avenida Paulista?! Alguma coisa acontece no meu coração, apesar de não ser a avenida São João. Olho para cima, como um caipira que vê um arranha-céu pela primeira vez. A altura dos prédios não permite ver além da própria avenida; homens e mulheres com caras importantes andam correndo, falando ao telefone, parecendo tratar de assuntos importantes. Olho para o prédio que o moço apressado apontou e constato que o prédio da minha entrevista é o vizinho a ele.

Na porta, outras meninas embonecadas começam a aparecer. Todas com o mesmo cabelo, roupa e maquiagem. Estou no lugar certo.
No térreo, palavras de motivação e incentivo umas às outras. Solidariedade geral. "Você vai conseguir", me diz uma menina que já conhecia pelo Orkut.

Subimos para o escritório de RH, responsável pela primeira fase do processo. Nos explicam que quem for aprovado, deverá se dirigir imediatamente ao prédio da TAM, que fica em outro bairro (o que em São Paulo significa "muito longe"). A seleção consiste em basicamente dizer o nome, idade, cidade, idioma que fala e qual o nível deste. Simples assim. Antes disso, veio uma redação- que duvido que alguém tenha chegado a ler- e uma checagem de peso, altura e tamanho da tatuagem de algumas meninas.
Após cerca de duas horas, em uma sala apertada, duas simpáticas senhoras entram com uma lista.
"Quem eu disser o nome, por favor, permaneça na sala para pegar o encaminhamento para a próxima fase. Ao restante, o nosso muito obrigada".
Começam a falar os nomes. Primeiro, as Alines, Adrianas, Alessandras. Depois, vieram as Bárbaras, as Cláudias e as Vivianes e  então eu me dei conta de que não seria chamada.
Foi aí que senti pela primeira vez o chão sumir debaixo dos meus pés. A solidariedade do início se tornou um triunfalismo das meninas aprovadas e as reprovadas apresentavam os mais variados sintomas: Algumas choravam, outras brigavam, outras diziam que iriam desistir. Eu, só conseguia produzir coisas automáticas, como apertar o botão do elevador e entrar dentro dele. Ao chegar no térreo, senti o ar de novo em meus pulmões e consegui desejar boa sorte nas próximas etapas a algumas meninas. A maioria só me respondeu com um azedo e arrogante sorriso.
Comecei a ligar para as pessoas que estavam esperando resposta: "Não deu...É... Não sei...Eles não falam... Tá bom... É...Eu sei... Tá bom... Beijo...Tchau."
Dividi o táxi até uma estação de metrô com uma menina furiosa por ter sido reprovada. Eu olhava a cidade  e me perguntava o quê exatamente eu tinha ido fazer ali.
Na pensão, solidariedade geral: "Não acredito!", "mas na próxima você vai conseguir!", "A GOL tá chamando... manda seu currículo pra lá!".
Me pergunto se quero tentar uma próxima vez. Me pergunto se tenho ânimo pra isso. Penso em todo o dinheiro gasto para estar ali e no sacrifício da minha mãe pra essa tentativa frustrada. Não bastasse isso, ela ainda me manda pegar o primeiro voo pra voltar pra casa, ainda que isso esteja muito além das nossas finanças.
Estou sentada no aeroporto de Congonhas, esperando o ônibus para Guarulhos. Centenas de tripulantes desfilam na minha frente. "Será que isso é pra mim?". "Será que um dia vou fazer parte disso?". Olho pra chuva fina caindo e começo a chorar, por sentir pela primeira vez que a vida é injusta.
Sinto meus sonhos despedaçados, sem qualquer explicação dos algozes. Me sinto incapaz de conseguir alcançar meus sonhos.
Volto pra casa num voo da GOL, olhando para o avião e me perguntando se algum dia aquilo me parecerá familiar.
Desembarco em Confins.
"Bola pra frente, minha filha".



Pra quem não sabe o final da história, porque começou a ler o blog agora, pouco mais de um mês depois, fui aprovada na seleção da GOL, dando início a um dos capítulos mais lindos da minha história. 

2 comentários:

  1. Amandinhaaaa! Primeiramente que saudades de voce!!! Segundo, amei seu blog!! Voce escreve muito beem menina, e suas historias sao pra la de boas! =) Continue assim que vou te acompanhar!! =D Bjo Deus abencoe!

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  2. Amandinhaaaa! Primeiramente que saudades de voce!!! Segundo, amei seu blog!! Voce escreve muito beem menina, e suas historias sao pra la de boas! =) Continue assim que vou te acompanhar!! =D Bjo Deus abencoe!

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