sábado, 9 de março de 2013

Pés descalços

Já é quase meia noite e eu estou na rua, descalça.
Volto pra casa, olhando para os meus pés e me ocorre que esse é um péssimo hábito.
"Falta de falar não foi", talvez diriam minha mãe e minha avó.

Eu sempre gostei de andar descalça. Nunca tive pés bonitos, mas sempre gostei.

Eu só gostava de brincar na rua descalça.
No meu tempo de criança, uma multidão de meninos e meninas se aglomeravam na rua da minha vó. Brincávamos de rouba-bandeira, esconde-esconde e "pular o toco".
Eu subia em árvores, batia campainha e saia correndo, andava de bicicleta...
Sempre descalça.
Uma vez ralei todos os dedos do pé esquerdo, bem no meio de todos os eles, porque passei com a bicicleta muito perto de um muro. Tenho cicatrizes que só eu reconheço até hoje neles. O pé que já não era lá muito bonito, ficou mais feio ainda.

Sei que este hábito não é muito higiênico e já me machuquei inúmeras outras vezes por causa disso.
Minha avó sempre me falava pra calçar o chinelo, mas meus amados pés transpiravam (e ainda transpiram) demais pra mantê-lo preso aos meus pés.

Eu e meus pés descalços.

Meus pés que não gosto que ninguém observe, mas que eu sempre gostei de ver livres.

Lembro de uma vez na praia, enquanto caminhava e via minhas pegadas deixadas pra trás. Pensava: "Em quantos lugares será que ainda vou deixar pegadas?".

Eu e meus pés descalços.

Quantas cicatrizes será que eles ainda vão ganhar? Será que um dia eu mudo esse hábito? Será que um dia eu perco a vergonha deles?

Talvez eu goste deles assim, porque nem um "Louboutin" se compara à liberdade de não andar com nada além de seus próprios pés - gente fútil nunca experimenta dessa liberdade.

Ou talvez porque pra experimentar a vida, seja necessário descalçar-se, ainda que se sinta vergonha.

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