quinta-feira, 4 de abril de 2013

Comissões e tolerância

Eu não me lembro exatamente como começou, se foi assistindo  ao jornal ou lendo alguma coisa no Facebook. Só sei que fiquei muito brava quando vi que Marco Feliciano havia sido eleito para a Comissão de Direitos Humanos, não apenas por opiniões políticas, mas principalmente por possuir opiniões teológicas muito divergentes da dele. Como membro de uma denominação |"evangélica", num país em que o sentido dessa palavra se perde e se mistura com uma velocidade e falta de critério assustadora, rapidamente me posicionei no Facebook a respeito do assunto, me colocando não somente contra o presidente da Comissão de Direitos Humanos, mas a sua representatividade. Já conheço as declarações polêmicas do "pastor" há muito tempo e elas sempre me deixaram de cabelo em pé, primeiro pela forma como eram manifestas, segundo por causarem um enorme preconceito, por parte de não-cristãos que as ouviam, com a fé evangélica.

Só que aí, eu é que fui para o caminho do preconceito. Julguei o trabalho do deputado pelas minhas opiniões a respeito dele como pastor e caí na opinião dos jornais.

Por estar atenta somente ao que a mídia- que todos sabemos poder ser tão manipuladora quanto Feliciano- não me atentei ao que realmente estava acontecendo.

À princípio, achei que se tratava realmente de um debate político, mas ao ver as reações dos manifestantes, ficou evidente que a briga ia muito além de uma Comissão. Aliás, quantos brasileiros sabiam o que era uma Comissão da Câmara antes dessa briga? Eu, que me considero politicamente ativa, só fui aprendê-lo na matéria de Teoria Geral do Estado e Ciência Política, no curso superior de Direito. Quantos outros possuem essa matéria em sua grade curricular? Quantos outros têm conhecimento dos direitos e deveres que envolvem um representante eleito pelo povo?

Só fui entender o jogo dos partidos ao descobrir as Comissões e tenho certeza que mais da metade da população brasileira, inclusive os envolvidos na discussão, não têm conhecimento do que elas realmente representam. Enfim, não quero hoje dar aula de Ciência Política, mas há de se reconhecer que pelo menos pra uma coisa essa baderna serviu: o povo descobriu que existem Comissões no país e que são nelas que grande parte de seus interesses são discutidos.

Voltando à polêmica, os dias foram passando e, para alegria da mídia deste país, o "circo" - que já tinha espetáculos suficientes - começou a pegar fogo. Na verdade, todos sabem que essa discussão representa algo que vem crescendo e sendo abafado há tempos. Demorou para que estourasse. E diga-se de passagem, estourou em um momento maravilhoso para outros políticos envolvidos em escândalos. Renan Calheiros reina em paz no Senado.

Não escrevo este texto como uma defesa ao deputado Marco Feliciano, mas em defesa ao meu direito de opinar e defender o que acredito.

Jamais ofendi colegas homossexuais e tenho muitos amigos que possuem esta opção sexual, inclusive ex-colegas de trabalho. Nunca disse que os amava "mesmo eles sendo gays", primeiro porque acho esse tipo de colocação de um mau gosto extremo, segundo porque se eu for definir meus amigos através de suas práticas que são consideradas pecaminosas, ficarei sozinha - mesmo porque eu também sou pecadora. Já tive inúmeras discussões saudáveis com amigos a respeito desse assunto e apesar de no final continuarmos defendendo opiniões diferentes, mantivemos o respeito e o coleguismo.

Só que agora, divergir e discutir não basta.
Quando os protestos começaram, ninguém questionou sua legitimidade, afinal, "é livre a manifestação do pensamento", mas agora, confesso: estou assustada. Estou assustada com a incoerência apresentada por alguns manifestantes que apregoam tolerância. Tenho visto todos os crimes ao qual Marco Feliciano é acusado serem praticados por seus acusadores. Não estou assustada com os protestos, pois fazendo coro a Voltaire, "posso não concordar em nada com o que dizes, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las", inclusive, morreria pelo meu direito de dizer também.
Artistas, jornalistas e intelectuais (pelo menos dizem que são) surgiram de todas as partes para pedir a saída do "pastor" - porque, é claro, pode-se defender com unhas e dentes a laicidade do Estado, mas pedir a saída de um "deputado" seria uma afronta à democracia. E isso, os "intelectuais" sabem bem.

Marco Feliciano passou a sofrer perseguição em todos os ambientes que frequenta e nos trajetos a estes também, o que prova mais uma vez que dizer que essa luta é apenas uma luta pelos "Direitos Humanos" é o mesmo que dizer que o Golpe Militar foi uma luta pela evolução da democracia no Brasil. Se se trata apenas da Comissão, por que a discussão saiu tanto do espaço de Brasília?! Se é só por laicidade, por que evangélicos que não têm absolutamente nada a ver com a história têm sido atacados ferozmente na internet?!

Não quero aqui ser generalista e afirmar que todos os ativistas são "evangelicofóbicos" e que todos os evangélicos têm agido com amor cristão. Falo desse verdadeiro campo de guerra que as redes sociais se transformaram, colocando de um lado os evangélicos e de outro os homossexuais. Tudo isso se transformou em uma luta esdrúxula, que ainda fez surgir políticos aproveitadores dos dois lados.

Eu continuo evangélica, ativa politicamente e defensora de Direitos Humanos. Continuo acreditando que o casamento deve ser entre um homem e uma mulher e que este é o propósito de Deus. Continuo crendo que Deus está envolvido em todas as esferas da minha vida e não separo o religioso do restante delas.
Continuo defendendo, com tudo que eu puder, o Constitucionalismo, a representação e a livre manifestação do pensamento. Nada disso comprova ódio ou comportamento homofóbico .

Espero que isso seja tolerado também.






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