quinta-feira, 11 de abril de 2013

Voltando a aurora da minha vida


Hoje eu voltei à aurora da minha vida.

Voltei a um lugar que era minha segunda casa, às vezes até a primeira, e onde eu fiz muito do que eu sou hoje.
Voltei à escola em que eu estudava.
Fui à trabalho, para realizar uma pesquisa para o Instituto do qual sou estagiária.

Hoje, eu voltei a ter 12, 13, 14 e outros anos da adolescência.

Ao passar pelo portão da escola, senti exatamente como me sentia há quase quatro anos atrás.

Quatro anos... Tudo isso se passou? Ou só isso se passou?
Quanta coisa aconteceu desde a última vez que cruzei aqueles portões como aluna.... Quanta coisa, que se me contassem, eu jamais acreditaria. Quantas Amandas diferentes eu já fui nesse tempo.

Mas hoje eu já não era nenhuma delas. Hoje eu fui o que eu era.

Me senti como na canção do Renato Russo: "Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim, tão diferente...".

Passei pela grande e antiga porta de madeira. O saguão lindo, que me dava a sensação de estudar na escola mais linda do mundo, permanecia o mesmo. A "tia" da portaria me disse que eu deveria subir as escadas pra falar com a vice-diretora, Silvana. "Nova vice-diretora e nova sala da vice-diretora", pensei. Subi e parei na porta dela com o mesmo constrangimento do passado. Era uma antiga professora e meu respeito permanecia inalterado.

"-A boa filha à casa torna", disse sorrindo à ela. 
Conversamos sobre o que eu vinha fazendo nos últimos anos e sobre como alguns colegas "da minha época" estavam. Ela me contou sobre os professores que já haviam se aposentado e todos os meus preferidos estavam entre eles. Uma pontinha de tristeza pelas gerações que não vão conhecê-los e uma imensa saudade bateu em meu peito. Aliás, essa imensa saudade acompanhou cada passo meu e cada cenário que meus olhos viam. Tudo nessa escola tem uma história minha.

A antiga supervisora, a única pessoa com quem briguei em toda minha vida escolar (a que disse que eu tenho olhos ferinos) ainda estava lá (absolutamente a mesma pessoa) e seria ela quem me acompanharia para entrevistar os alunos.

"-Fulana, essa aqui é a Amanda, nossa ex-al...."
"- Eu sei quem ela é.", respondeu ela para a vice-diretora que me apresentava.

Eu já havia me reconciliado com ela no passado e terminamos o meu último ano como quase melhores amigas. Sua vontade de me agradar permanecia a mesma e ela me dirigiu aos alunos para a entrevista.

Ao entrar no corredor das salas de aula, as lembranças vieram tão forte, que levou algum tempo até eu me lembrar que o tempo já havia se passado. Parecia que minha vida nos últimos anos foi só um sonho e que eu ainda era aluna do Magistério.

Cada sala em que eu entrava, um turbilhão de memórias invadia a minha mente. Coisas que eu não pensava desde que saí de lá. O cantinho da sala onde eu e minha amiga, Ester, sentávamos me fez lembrar das manhãs de conversas tão profundas que tivemos ali. Quantas lágrimas, risos, orações e sonhos foram compartilhados. Quanta coisa Deus fez nesse tempo.

Ao passar pelas salas, cumprimentava os professores e fiquei divertidamente surpresa ao perceber que alguns deles permaneciam a mesma coisa. Um deles me fez entrar na sala e contar minha história para os alunos.
Meu Deus!, será que eu serei uma das pessoas a inspirar aqueles alunos?! Será que eu posso fazê-los acreditar que apesar de toda a realidade do estudante de escola pública a gente pode sonhar alto?! Será que algum deles vai ficar pensando no que eu disse e pode ser que isso tenha algum impacto na vida deles ?!
Pela primeira vez na vida, senti realmente que poderia ser inspiração pra outras pessoas e falei com toda a paixão, fé e esperança do meu coração. Senti que não era eu quem falava, mas que eu era a menina de dezessete anos sentada numa daquelas carteiras, ouvindo uma história bonita sendo contada por alguém.

Pode parecer arrogância, mas pensando na menina de dezessete anos, minha história é surreal.

Ao passar por outro corredor, avisto uma das minhas pessoas favoritas naquela grande escola.
Aquela, eu não tinha dúvidas, iria se lembrar de mim. Quantas aulas passei na sala da "Marinês"(forma como Maria Inês é chamada em Minas), escrevendo textos para o grupo de teatro pelo qual nós arduamente batalhamos. Minha supervisora, que se tornou uma amiga, e que é uma grande incentivadora de alunos permanecia a mesma. Ao me avistar, ela estava conversando com um professor.
Imediatamente, fixou os olhos em mim e abriu os braços, exclamando: "-Amaanda!!!".

Nesse momento, os últimos 3 anos e pouco foram apagados da minha mente. Eu era a adolescente obcecada por teatro e por fazer algo na escola e coordenava o grupo de teatro com a Marinês . Dei um abraço apertado e ela imediatamente me disse que o grupo ainda existia e que iria se reunir dali a pouco. Fez questão que eu ficasse para aparecer na foto que eles tirariam naquela tarde e que sairia na revista da escola. Fiquei feliz por três coisas: Pelo grupo; por ter chance de conhecê-los; e por saber que a escola agora tem uma revista, que era o meu sonho de aspirante a jornalista.

A Marinês me pediu que escrevesse um parágrafo sobre minha experiência no grupo e eu a acompanhei até a sala dos professores para fazê-lo. Ao chegar na porta, o que conscientemente eu faria sem pestanejar, o inconsciente não permitiu. "ENTRADA PROIBIDA PARA ALUNOS". Muito antes de ler o recado eu já tinha travado na porta. Enquanto ela não me chamou e disse para entrar, eu não me dei conta do que estava fazendo.

Fiquei até mais tarde, conversei com várias pessoas, participei da foto no Anfiteatro, comi cachorro-quente e então parti.

Parti, com a promessa de voltar mais vezes.

Hoje, eu rememorei coisas que há muitos meses não passavam pela minha mente.

De vez em quando, a gente tem que voltar pra casa, pra lembrar de quem era e porque é hoje; pra lembrar do que plantou e do que colheu; pra ser grato a Deus e pra reconhecer as bençãos que Ele nos deu; pra lembrar que a vida é efêmera, mas algumas coisas permanecem inalteradas; pra lembrar que amar os outros vale muito a pena; pra lembrar que se a gente se entrega a cada dia com tudo que tem, as coisas que a gente almeja acabam nos alcançando; pra lembrar que vencer é maravilhoso, mas nada se compara a beleza de uma jornada bem vivida; pra lembrar ganhando ou perdendo, é a história que a gente escolhe viver, que vai contar lá no final.



2 comentários:

  1. Chorei aqui, que saudaes desse tempo. Me fez pensar sobre meu curso e essa questão de influenciar pessoas... amei !!

    Ester

    ResponderExcluir