domingo, 26 de maio de 2013

Capítulo 1- Diário de Bordo - Pessoas

Está fazendo muito frio. Três meninas estrangeiras correm na neve de Bratislava.
Elas estão ofegantes, cansadas, os pés estão molhados, mas elas não param de correr.
As três correm para se despedir de uma amiga, que irá partir de ônibus para Viena dentro de alguns minutos.

Pode parecer estranho, mas começarei minha história falando sobre o final.

Todos possuímos inúmeras expectativas em relação a um intercâmbio. Pensamos nas dificuldades, pensamos nos desafios que nos esperam, nos lugares que iremos conhecer, em tudo que vamos aprender... mas poucos de nós, antes de uma viagem, damos a devida importância ao que acredito ser o maior presente de ser intercambista: ganhar amigos.

Eu não posso começar a falar sobre minha experiência sem antes falar dos personagens que a protagonizaram. Eu não sei se conseguirei descrever com fidelidade o amor que sinto por essas pessoas, mas saibam que sem elas, toda essa história perderia o sentido. 


Voltemos à cena da corrida na neve.
As três estrangeiras, após muito correrem, vislumbraram duas figuras caminhando. Uma menina ajudava outra a puxar uma pesada mala até o ponto de ônibus. Neste momento, todo frio, cansaço e vento não são suficientes para contê-las. Elas correm mais ainda, a fim de encontrar a menina mais rápido.
O encontro é regado de abraços, lágrimas, sorrisos e palavras, que apesar de ofegantes, expressam a saudade e tristeza que vão ficar.

As três estrangeiras eram eu, a Emilija,da Macedônia, e a Irene, de Taiwan.
As meninas que encontramos eram a Thamara, brasileira de Joinville, e a Jennifer, também de Taiwan. Faltaram algumas para integrar este grupo, mas esta cena descreve um pouco de como foram as seis semanas que passamos juntas.

Neste dia da despedida da Thamara, eu sinceramente não consigo descrever tudo que se passava em minha mente. Eu iria embora no outro dia, mas Bratislava já não parecia mais a cidade que eu desembarquei para ficar "apenas" seis semanas. Eu sentia que estava na minha própria cidade, com minha própria família, apesar de tudo isso estar a milhares de quilômetros de distância. Era um sentimento de familiaridade misturado com a negação de que aquilo tudo terminaria dentro de poucas horas.

De todos os lugares possíveis no mundo, nós escolhemos Bratislava. Na verdade, acho que Bratislava nos escolheu.

Éramos seis meninas, mais a Thamara, morando em um antigo apartamento (Ubytovanie) na região industrial da capital eslovaca. Lembro da primeira vez que entrei neste lugar, com um intenso sentimento de "o que é que eu vim fazer aqui?". Por que, afinal de contas, eu havia largado todo o conforto da minha casa, pra ir para um lugar como aquele, enfrentar este tipo de situação? "Que isso acabe logo, meu Deus", foi o que pensei quando vi o banheiro do lugar onde moraria.

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Desembarquei na estação de trem de Bratislava e, para minha surpresa e desespero, não havia ninguém me esperando. Estava absolutamente em choque com o país e, além de tudo, sozinha. Aquela não era a Europa que eu conhecia. Uma estação estranha, inúmeros pedintes cheirando a vodka, ninguém que falasse inglês, nenhum telefone público por perto e nenhuma forma de comunicação possível. Com a cor da minha pele e do meu cabelo, não havia como passar despercebida. Todos me olhavam com uma expressão de "o que ela está fazendo aqui?" e eu fazia essa mesma pergunta na primeira pessoa. Andei de um lado para outro com 35 quilos de bagagem, sentindo que seria assaltada a qualquer momento, por quarenta minutos, e quando estava prestes a voltar para Praga e adiantar meu voo para o Brasil, alguém falou: "Amânda?!". Era o Jakub (em eslovaco se pronuncia Iácub), o responsável pelo projeto e o único com o qual eu estabelecera contato até então pela AIESEC. Só não me atirei nos braços dele pra não fortalecer a imagem ruim das brasileiras, mas não consegui esconder a minha emoção. Ele estava acompanhado da Lucya, minha buddy (em inglês, "companheiro". Na AIESEC, é a pessoa que fica responsável por cuidar de você) e o Michal, um loiro enorme, jogador de futebol americano, e a típica imagem que eu tinha dos europeus do Leste. Eles também haviam se perdido de mim e me procuravam feito loucos. Quando o Jakub estava chegando ao posto policial, me encontrou.
Agora faltava esperar a Katya, ucraniana de Kyiv, que chegaria após mais de 30 horas em um trem. Após alguns minutos, ela surgiu, radiante e falante. A Katya (na verdade, Kataryna) foi a primeira colega de quarto que conheci e é a personificação de uma "barbie girl". Voz fina, corpo mais ainda, super vaidosa e meiga (ao extremo). Ela jogava os cabelos ruivos de um lado para o outro e no carro ia falando sobre as semelhanças de Bratislava e Kyiv. Apesar de sermos absolutamente diferentes, senti um carinho por ela e que poderíamos nos dar bem.

 Chegamos à ubytovanie, uma acomodação da época do comunismo, e lá conhecemos o Lucas, brasileiro de Florianópolis, que já estava ali há um tempo. Não resisti ao impulso, após uma semana sem falar português e comecei a conversar com ele no nosso amado idioma tupiniquim.

"- Que você tá achando?"
"- Tranquilo.", ele respondeu.

O "tranquilo" dele não me tranquilizou. O lugar era habitado quase que totalmente por operários de fábricas e eles me olhavam da mesma forma que os pedreiros no Brasil. Eu havia dito à minha mãe e também acreditava que ficaria num dormitório para estudantes. Pelo visto, eram estudantes de muitos anos atrás.

Após muito esmurrarmos a porta e não obtermos sucesso, conseguimos uma segunda chave para abrir o "apartamento". A Emilija, da Macedônia, foi a segunda colega que conheci. Ela estava dormindo profundamente quando chegamos e por isso não ouviu quando batemos. Eu não me lembro o que pensei quando vi a Emilija pela primeira vez. Ela era loira e tinha traços bem típicos da região do sudeste europeu. (Não posso falar "da Grécia" porque os macedônios têm uma rixa milenar com os gregos). O que mais me chamou a atenção foi o inglês impecável que ela falava. Parecia uma nativa falando e apesar de não acreditar que teríamos uma grande amizade, acreditei que seríamos boas colegas. Acontece que a Emilija se tornou uma irmã e uma das pessoas que eu mais menciono quando falo da viagem.

Mal tivemos tempo de deixar as malas e o Jakub já nos levou para encontrar os outros "interns" (na Aiesec não se usa muito a palavra "intercambista". "Intern" tem um sentido mais próximo de "estagiário" ou "interno").

Eu estava verde de fome, então a ideia de ir a uma pizzaria me pareceu fantástica.
Neste lugar, encontramos os outros, que prefiro não mencionar individualmente para não esquecer de ninguém.

Após algumas dinâmicas para nos conhecermos, eu pude experimentar Kofola, a coca-cola do Leste Europeu. A história dessa bebida se mistura com a do próprio país, pois como todos que não mataram aula de História sabem, era proibida a importação de produtos de países de fora do regime soviético. A Kofola foi a solução comunista. Histórica ou não, a bebida é a-do-ra-da pelo povo de lá e eu para não ser rude falei que gostei. O gosto é uma mistura de Pepsi sem açúcar com groselha, se vocês querem saber.

De volta ao dormitório, eu, a Katya e a Emilija começamos a nos aproximar. Contamos nossas histórias, demos risada das nossas diferenças culturais, compartilhamos sonhos e nos tornamos amigas. Parecíamos a família perfeita para seis semanas, mas fomos informadas de que outras meninas se juntariam a nós nos próximos dias. Isso nos causava uma apreensão enorme, porque já estávamos encontrando certo equilíbrio na convivência e novas pessoas provavelmente o abalariam, além de causar desconforto, devido ao pouco espaço.

Em poucos dias, a Ulfah, da Indonesia, se juntou a nós. A Ulfah usava véu, o que dispensava explicações sobre a religião que ela praticava. Pra mim, foi particularmente impactante conviver tão de perto com uma muçulmana. Eu imaginava jovens tristes, sérias, que só tinham como objetivo casar e ter oito filhos. A "Fah", como a gente a chamava, quebrou os meus preconceitos. Ela era super sorridente, solícita, fazia de tudo para agradar, cantava Chris Brown e éramos parecidas em inúmeras coisas. Algo que foi motivo de muita risada nossa foi o tamanho da sacola de comida indonésia que ela trouxe. Era praticamente todo o meu volume de roupas. Como a dieta muçulmana é mais restrita, ela veio mais do que preparada. Pelo menos ela tinha comida e nós não tínhamos nada.

Um dia depois, fomos informadas de que uma menina de Taiwan estava para chegar. Só de lembrar do rostinho dela eu começo a sorrir.
Eu não sei como descrever as meninas de Taiwan, especialmente a Irene. Eu hoje tenho convicção de que os orientais têm algo especial, porque eu não conheço ninguém no Brasil tão doce, ingênuo e afetuoso como eles. Eles sempre me diziam que eram os melhores taiwaneses e que eu não achasse que eram todos assim. Apesar de concordar com a primeira frase, eu tenho minhas dúvidas em relação a segunda.
A Irene parece ter saído de um anime ou algo do tipo. A voz baixinha, a timidez no jeito de ser, as expressões faciais fofas e as frases mais engraçadas que alguém pode falar.

A família cresceu, o espaço diminuiu, mas continuávamos feitas umas pras outras.
Quando o equilíbrio parecia estabelecido novamente, alguém nos informou que outra taiwanesa estava para chegar. Essas mudanças sempre traziam apreensão. "Como seria a nova integrante? Será que ela se encaixaria no nosso grupo?!".
Eu igualmente não tenho palavras para descrever a Jennifer. Acrescente mais doçura ainda às taiwanesas e então pode-se ter uma ideia de como ela é. Confesso que me sentia dez vezes mais barulhenta e agitada perto dela. Não pense que isso significa que elas são apáticas, molengas ou algo do tipo. Muito pelo contrário, são inteligentíssimas e o dobro de mais atentas do que  a gente. Mas a educação oriental traz um aspecto de leveza impressionante à essas meninas.

Algo que me marcou muito, que descobri através da Jiyhe, coreana que conheci em Praga, é a baixa autoestima das meninas orientais. Por serem completamente diferentes do padrão americano e europeu de beleza, elas se sentem feias e incapazes de serem admiradas. A Jiyhe me contou que algumas meninas chegam a fazer cirurgias dolorosíssimas para abrir o formato dos olhos, usam lentes azuis e pintam os cabelos de loiros. É claro que nenhuma das orientais que conheci chegou a tal ponto, mas senti que há realmente um sentimento de inferioridade. Por isso, aproveito este parágrafo para dizer: Meninas, morenas, negras, orientais, amarelas, loiras, ou qualquer outra cor que possa existir: Você é única no mundo! Deus te fez do jeitinho que você é e não há qualquer motivo pra querer mudar isso. As diferenças é que tornam esse mundo um lugar mais colorido e alegre pra se viver! 

Esqueci de mencionar que a Thamara não morava com a gente oficialmente, mas era parte da família também e dormia conosco (escondido) várias vezes. É outra que se tornou uma irmã e uma amiga maravilhosa nos momentos difíceis, principalmente por falarmos (literalmente) a mesma língua.
O Gui, que também é brasileiro, chegou alguns dias depois de nós e é meu lorão que vou amar pra sempre. Ele é da minha amada terra do leitE quentE, Curitiba, e nós nos conhecemos pelo Facebook antes de viajarmos. A Ciça, que também já conhecia pelo Face, também foi outra parceira de aventuras maravilhosa. Demos muitas risadas juntos e zoamos muito em português. Fazer piada aqui é natural, mas é setecentas mil vezes melhor quando falado em um lugar que tem como língua o eslovaco. Nem queiram imaginar o tanto que ríamos quando nos encontrávamos.
Outras pessoas também chegaram depois e eu não posso deixar de mencioná-las: Erlanggha, meu colega de trabalho dorminhoco, que veio da Indonésia; o Chris e a Julia, de Taiwan, que são amores mais amados do amor que há no mundo; a Stefania, diretamente de Torino, Itália, que só nasceu no lugar errado, porque é brasileira na alma; o Lukas, que é eslovaco, e cá entre nós, o cara mais lindo que eu conheci lá; e inúmeras outras pessoas de todo mundo, que iam se juntando ao grupo e que infelizmente eu não consigo lembrar agora. 

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A esta altura, você deve estar se perguntando porque eu comecei narrando o episódio da nossa primeira despedida.

É muito simples: porque esta cena descreve exatamente o que foram essas seis semanas.
Nossa família de sete meninas no quarto foi a melhor família que Deus podia me dar pra viver esse tempo.
Não foi no projeto, muito menos enquanto tirava foto de monumentos que eu mais aprendi.
Foi na mesa da cozinha, com comidas de cinco países diferentes; foram nos momentos em que faltavam palavras em inglês e nós falávamos português, chinês, macedônio, russso e indonésio (o meu inglês voltou o mesmo, mas em compensação sei falar "obrigada" em mais de sete idiomas); foram nas discussões sadias sobre temas polêmicos como aborto, casamento e religião em nossos países; foi no aprender a respeitar o espaço de cada uma, mesmo com pouco espaço; foi no compartilhar de sonhos, às vezes tão surpreendentemente parecidos, e no compartilhar de medos, que apesar de contextos diferentes, são praticamente os mesmos.

Nós éramos imensamente diferentes e infinitamente parecidas. Os medos das meninas de Taiwan são os mesmos das meninas brasileiras. As queixas sobre rapazes macedônios são as mesmas das meninas da Indonésia. As dificuldades de se conseguir uma boa carreira são uma preocupação de cada menina em seu devido contexto.

Nós poderíamos ter escolhido inúmeros lugares, mas escolhemos Bratislava. Na verdade, hoje eu tenho certeza, Bratislava nos escolheu.

O que tenho a lhe dizer, caro leitor ou leitora, é que eu trocaria a chance de conhecer todas as cidades do mundo, para reencontrar essas meninas. Eu voltaria no tempo e passaria cada dia ao lado delas mais uma vez.

Cada uma das nossas despedidas foi como a da Thamara.

No dia seguinte à dela, foi a minha vez.
Eu arrumei as minhas malas e olhei cada pedaço daquele dormitório. Parecia que dentro de algumas horas eu ia voltar. Algumas malas já estavam feitas, outras já tinham partido para outras casas, porque ficariam mais tempo em Bratislava.
Tranquei a porta do quarto 104 pela última vez e desci para a recepção. O Lukas me levaria à uma estação de TV junto com o Chris para uma entrevista e depois para a estação de trem.

Ao chegar na Hlavná Stanica lá estavam alguns deles, me esperando como quando cheguei.
A essa altura, eu me sentia como Lucy Pevensie voltando de Nárnia e que a qualquer momento eu acordaria na minha cama no Brasil, como se nada tivesse acontecido.

A Irene e a Emilija ainda não haviam chegado e eram as únicas que eu não tinha me despedido.
Elas chegaram correndo, esbaforidas, como quando nos despedimos da Thamara e tivemos tempo de trocar vários abraços e palavras.
De repente, éramos um grupo de uns quinze na estação, o que é muita gente para o padrão de despedida europeu.
A cada passo que eu dava em direção à plataforma, um nó na garganta parecia me sufocar.
Todos eles foram comigo, até que eu entrasse no trem.

Eu entrei, e ainda vejo a Irene e a Emilija correndo junto com o trem e batendo as mãos na janela, até me perderem de vista.

Sinceramente, eu às vezes ainda acho que não entrei neste trem.
Às vezes acho que vou acordar e ver a Emilija dormindo na cama em frente à minha. Que vou ouvir a voz estridente da Katya, fazendo drama logo de manhã. Que vou assistir às apresentações da Irene nas escolas que a gente trabalhou. Que vou ver meus alunos, que apesar de não entenderem uma palavra em português, e às vezes nem em inglês, me receberam com todo amor do mundo.

A gente não faz ideia do tanto de amor que cabe no coração da gente, até decidir abri-lo para os outros.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu não pediria para ir aos palácios de Viena, às ruas de Praga ou aos museus de Budapeste. Isso tudo é maravilhoso, mas é obra de outras pessoas.

Eu só pediria um dia ao lado das pessoas que eu conheci e por isso te incentivo a viajar com o coração aberto. Deixe seus preconceitos em casa e saia da zona de conforto. Fora do nosso mundinho, a gente corre o risco de se perder de vez em quando, mas vale a pena. Vale muito a pena.

Com o coração cheio de saudade e a convicção de que um dia irei reencontrar essas pessoas,

Amanda Alves.


































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