sexta-feira, 14 de março de 2014

O (meu) Retorno às Águias

TEXTO QUE LI NO ENCERRAMENTO DO TREINAMENTO DA TURMA 125.
FELIZ DEMAIS POR TUDO QUE DEUS TEM FEITO!

"O Retorno das Águias"
Heráclito de Éfeso, antigo filósofo grego, dizia o seguinte: "ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou".
Para muitas pessoas à nossa volta, somos as mesmas pessoas, voltando para a mesma empresa. Se Heráclito disse a verdade, não podemos concordar com isso. Não somos as “mesmas” pessoas e esta não é a “mesma” empresa.
"O fluxo permanente define a harmonia universal. Tudo se move, nada se fixa na imutabilidade", dizia o filósofo. Tal pensamento pode parecer um tanto quanto exagerado e até mesmo angustiante, mas depois de "1 ano e 7 meses.." , meus caros colegas, vocês hão de concordar: a vida é mesmo uma correnteza que nunca para o seu fluxo, independentemente dos obstáculos que surjam no caminho. E nós não escapamos à regra.
Quem não se lembra do primeiro dia na portaria 3, com maquiagens impecáveis, trajes alinhados e pernas trêmulas?! Lembro de aos 18 anos entrar por aquelas portas e pensar: sou eu mesma ou estou em algum sonho?!
Se a seleção já parecia surreal, quanto mais o treinamento. Regulamentação, Sobrevivência, Práticas na Função, "Pulem, pulem , jump, jump".. E mais um monte de outras coisas que qualquer pessoa do mundo real pensaria: "bando de malucos".
E nós vencemos de novo.
O sonho se materializou e agora fazíamos parte daqueles seres de origem desconhecida, que de vez em quando desfilam por aeroportos e que ninguém consegue imaginar a história de vida. Só a gente sabe a dor e a alegria de ser comissário. Não adianta tentar explicar, exemplificar ou desenhar. Só quem é, sabe.
Os voos vieram, a realidade também e a rotina igualmente. As pessoas que conhecemos nem sempre se mostraram educadas, pacientes e compreensivas, o que nos mostrou a face obscura do "conhecer pessoas". Conhecer lugares, pessoas e fugir da rotina, começou a se mostrar algo cansativo, que causa fadiga às vezes, inclusive.
Nós também vencemos isso. Aprendemos a lidar com as adversidades e posso dizer, pelo menos pelas pessoas que hoje conheço: nada foi suficiente para diminuir a vontade de estar em nossa função.
Lembro-me de em um dos meus últimos voos, enquanto observava os passageiros, pensar: "Como eu sou realizada fazendo isso".
Mas como toda boa história precisa de emoção, veio aquela CB inesperada, causando uma turbulência avassaladora.
Há que se lembrar daquele dia: o dia em que entregamos o nosso crachá. Nesse dia, descobrimos o significado da expressão "perder o chão". Perdemos o chão e o ar. Lembro-me da tristeza nos olhos de nossas gerentes e cada palavra dita naquela sala. Só a gente sabe quanta dor estava ali. Algumas pessoas dizem saber, mas, sinceramente: Só quem estava ali sabe. Foi um dos dias mais dolorosos da vida da maioria, acredito eu, mas nesse dia, descobrimos outro sentimento muito nobre; um sentimento que muitos dizem conhecer, mas não fazem a menor ideia do que realmente seja: a esperança. Esperança de um futuro bom, de alegrias futuras e de um retorno. (E dizem que laranja é a cor da esperança...).
A partir daí, tivemos que redescobrir o mundo real: “O que será que as pessoas fazem com mais de cinco dias na mesma cidade?! Que tipo de emprego eu vou conseguir?! Quais são minhas outras habilidades?! O que eu tenho a oferecer para essa cidade?!”.
Histórias lindas surgiram disso. Lindas, não porque não tiveram intempéries, mas porque revelaram pessoas fortes, corajosas, destemidas, capazes de lidar com as derrotas e tirar delas o melhor proveito.
Tentávamos compreender a vida de outra forma, mas as pessoas não podiam nos compreender, e ao descobrir que não estávamos sozinhos, decidimos nos juntar em um barco só.
Meses e meses de silêncio. Nem um sinal em terra, céu ou mar que nos desse esperança. Apenas uma promessa, de que assim que a empresa se reestabelecesse (ou que a correnteza se acalmasse) nos chamariam de volta.
"Apenas uma promessa" é muita coisa e essas palavras se tornaram realidade, graças aos esforços de pessoas que talvez nem soubessem que estavam se esforçando por nós, mas que estavam nos ajudando a concretizar um sonho.
Em junho de 2013, o nome "Simone" se tornou o nome mais doce na face da Terra. E eu não preciso mais contar história, porque se estamos aqui, é porque essa história teve um final, aliás, um recomeço feliz.
Em Fevereiro de 2014, nós finalmente nos tornamos a turma 125 ("TOGETHER!"), que com certeza, será inesquecível!
Prezados colegas, talvez todo esse flashback pareça desnecessário, mas existe uma razão pra eu estar relembrando tudo isso: nós, seres humanos, temos a tendência de esquecer muito rapidamente lições importantes que aprendemos com a vida e eu não quero, de todo o meu coração, que isso aconteça, a começar por mim.
Que não nos esqueçamos das lágrimas no travesseiro, dos dias que ouvimos um barulho de avião e nos imaginamos lá dentro, dos momentos em que tentamos compartilhar toda essa paixão com alguém e fomos completamente incompreendidos e da história que cada um tem pra contar.
Sabemos que nenhuma carreira é perfeita. Não desejo ser utópica, muito menos hipócrita, mas gostaria que este grupo que hoje retorna seja reconhecido pela gratidão, alegria e pela satisfação em voar.
"Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou".
Nós não somos as “mesmas” pessoas e esta não é a “mesma” empresa.
Que sejamos, mais do que nunca, pessoas capazes de multiplicar, acrescentar, motivar e tornar a Gol a melhor empresa aérea para se trabalhar, viajar e investir.
Nós decidimos estar aqui.
Nós escolhemos a Gol.
Que todos tenham excelentes voos, turma 125!
"Tripulação, preparar para a decolagem".
Comissária Amanda Alves.

Nenhum comentário:

Postar um comentário