domingo, 29 de junho de 2014

Contos de Aeromoça (3)

Mais um pequeno #ContoDeAeromoça pra vocês, em homenagem a essa chuva:

Olhando pela janela agora e assistindo a essa chuva, minha vó me perguntou se eu já voei com esse tempo quando era comissária. 
Já voei várias vezes assim e dei risada sozinha das lembranças que tenho.
Gente, avião devia ter câmera pra registrar esses momentos.
Nessa hora, "aeromoça" vira salva-vidas e qualquer tosse dos tripulantes, faz todos os passageiros olharem pra eles, como se buscando o indício de que algo terrível está prestes a acontecer.
O avião fica parecendo um pêndulo suave, balançando pra lá e pra cá...
Olhares de terror surgem em toda a aeronave e alguns nos olham suplicantes, como se desejando ouvir as instruções de segurança novamente pra dessa vez prestar atenção.
A aeronave voa em círculos e por mais que o aviso de atar cintos esteja ligado, alguns insistem em apertar a chamada de tripulantes, talvez pra se certificar de que estamos vivos pra abrir a porta em caso de emergência.
Se dermos a sorte de ser possível pousar no aeroporto de destino, sem alternar pra outro aeroporto e após um bom tempo voando em círculos, vem o momento do pouso.
Vento de calda, motores com toda potência, a chuva passando em sentido horizontal na janela...
Aparecem as luzinhas da pista. Alguns ateus decidem se converter.
Os objetos da galley balançam estrondosamente. Os comissários conferem cada trava pela milésima vez e os olhos não sossegam, checando trava por trava.
As luzes da aeronave são apagadas.
Tomamos a posição de pouso e decolagem. A aeronave toca a pista com um impacto mais forte, o que é o ideal com pista molhada. Alguns bravejam contra o comandante, dizendo que "esse aí não sabe pilotar". Outros, nos fitam com um olhar desesperado, como se dissessem: "esse avião não vai parar?!".
A aeronave vai desacelerando, desacelerando... E enfim, toma a velocidade normal de taxiamento. Se o voo é na Argentina, os passageiros aplaudem. Se é no Brasil, alguns até devem sentir vontade de aplaudir, mas simplesmente soltam o ar que estava preso em seus pulmões a um bom tempo e voltam a respirar normalmente.
Se o avião para no finger (que é aquele corredor que leva até a porta do avião), sorte! Todos desembarcam felizes e determinados a nunca mais andar de avião.
Se é na remota (em que os passageiros desembarcam por escadas e pegam o ônibus da Infraero), eles logo esquecem do trauma recente e passam a bravejar contra a empresa, contra a Infraero, contra o governo, contra o Papa e claro, contra a pobre comissária que está ali na porta, impedindo-o de descer pulando do avião...
E o que acontece com os tripulantes?! Só Deus e Santa Escala sabem. Se a programação termina ali e não há regulamentação pra voar mais, a tripulação segue para o hotel. Caso contrário, o mau tempo sempre traz diversas modificações na escala, pois aeronaves não conseguem decolar ou pousar, causando diversos atrasos nos voos.
Com sorte, alguns passageiros do próximo voo serão compreensivos e entenderão que nenhuma empresa aérea ou tripulante tem culpa pela chuva cair bem na hora de seu voo.
Sem sorte, teremos que ouvir de um passageiro que a empresa é mesmo uma m**** e que não entende porque um avião não pode decolar com uma "chuvinha" dessas. Em geral, esse também é o passageiro ateu que converte na hora pouso.

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