domingo, 20 de julho de 2014

Isso lá é bom...Doce solidão!

"Não tenho um tom, não tenho palavras, não tenho um acorde que me socorra agora.
Tudo foi embora... Só tenho Você.
Havia o silêncio que mostrou os meus vícios. 

Me agarro contigo.
Vem!, me socorra agora.
Tudo foi embora. 

Só tenho Você, Amor, agora".

Vem me socorrer - Palavrantiga. 


O silêncio que mostrou os meus vícios. Essa música expressa exatamente o que sinto agora. 

Ontem, precisei ir à Praça da Liberdade (em Belo Horizonte) para devolver alguns livros na Biblioteca Pública. Era sábado, o trânsito não estava estressante e as pessoas pareciam bem humoradas.

Eu precisava de silêncio.
Eu ando precisando de silêncio.
São tantas vozes, tantos barulhos, tantos ruídos!... Tudo que eu queria era um lugar de sossego, sem som nenhum, mas mesmo agora, enquanto escrevo este texto, um carro na rua toca uma música no último volume sobre "piriguetes, baladas" e outras coisas intranscritíveis

É impossível pra mim estar em silêncio, por isso, ontem, mesmo tendo encontrado a Biblioteca fechada, decidi dar uma volta na Praça (vou a essa praça constantemente sozinha, pra fazer nada).

Entrei no museu "Memorial de Minas Gerais", da Vale.
A primeira sala do museu é dedicada a Guimarães Rosa, maravilhoso escritor mineiro. Nesta sala, existe uma linda "árvore" feitas de pedaços de pau e nela estão pregadas frases do Guimarães. O visitante pode pegar uma e levar consigo. Eis o que o poeta reservou pra mim desta vez:

"O senhor sabe o que é o silêncio?
É a gente mesmo, demais". 
Nada mais propício após mais de uma semana refletindo sobre a necessidade de estar a sós comigo mesma.

Se o silêncio é a gente mesmo, demais, e temos vivido em uma época de tantos barulhos, então é possível afirmar que temos passado pouco tempo conosco. Isso tem me incomodado muito nos últimos tempos. 

Como sinto vontade de fugir de vez em quando, de ir pra qualquer lugar sozinha, de ficar a sós com Deus!
Mas os bips do celular, as chamadas de telefone, o som do meu vizinho, o barulho da televisão, as buzinas dos carros...Tudo isso me faz reconhecer os privilégios de uma vida fora da cidade grande. 

O interessante é que Jesus também conheceu esse sentimento. Frequentemente, encontramos nas Escrituras frases como: "E Jesus retirou-se dali...", e "foi para o monte para ficar a sós". 
Depois de um episódio em que "toda a cidade estava reunida à (sua) porta", Ele, após curá-los e expelir demônios, "tendo se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava" (Marcos 1:35). E não pense você que somente em nossa época as pessoas parecem se desesperar quando não nos encontram. Se Jesus tivesse Whats App, com certeza teria recebido diversas mensagens dizendo "Kd vc?", "atende o telefone", "estamos preocupados", "respoooonnndeee", porque a Bíblia diz que seus discípulos o buscavam "diligentemente" neste dia em que não O encontraram. 
Jesus também enfrentava dificuldades pra ficar sós sem que todo mundo buscasse por Ele, mas, ainda assim, Ele encontrava um jeito de estar a sós com o Pai. Ao fazer isso, Jesus vivia literalmente o que Guimarães Rosa disse: estava demais, com Ele mesmo, pois nunca existiu, nem nunca vai existir maior plenitude do que esta que existe na Trindade.

Mas voltando ao meu passeio na Praça... Estou sem internet no celular (leia-se: ausência de créditos), então posso desfrutar de alguns momentos comigo mesma. Continuei meu passeio no museu e entrei na sala de Carlos Drummond de Andrade. A voz do doce poeta de Itabira enchia a sala, com um poema que não lembro o nome, mas que fez-me lembrar de outros poemas dele. 
Drummond também era fascinado com o silêncio e em um de seus poemas, chamado "O Constante Diálogo", disse:
"Escolhe teu diálogo 
                           e 
tua melhor palavra 
                         ou 
teu melhor silêncio. 

Mesmo no silêncio e com o silêncio 
dialogamos. "

Tenho falado e ouvido muito, mas isso tem me cansado. Sou uma pessoa prolixa, mas estou sempre pedindo desculpas porque acho que falo demais. 
"Criei o blog porque amo as palavras, especialmente o poder existente nelas"... Essa é a descrição do meu blog, mas confesso que tenho cansado de tantas palavras. 
Minha vida sempre aconteceu através delas, mas as palavras de Drummond me acalentam agora: é possível dialogar no e com o silêncio. 

"Há tempo de estar calado e tempo de falar", disse o sábio Salomão em Eclesiastes 3:7.

Tenho buscado o silêncio e essa tem sido uma batalha árdua. Não consigo ficar cinco minutos sem fazer nada, sem distrações. 

Li um artigo no "The Guardian" essa semana falando sobre uma pesquisa feita nos EUA, em que ofereceram a algumas pessoas duas possibilidades: Ficar sentado fazendo nada ou dar choques elétricos neles mesmos. Adivinhem o que algumas pessoas escolheram?! E eu tenho certeza que eu estaria nesse grupo que você adivinhou. 

"Todos os problemas da humanidade derivam da incapacidade do homem de sentar-se calmamente em uma sala sozinho", disse Blaise Pascal no ano de 1600. Se naquela época já era difícil, imaginem agora. 

Não pretendo aqui dar conselhos, ou explicar este fenômeno, porque o tema deste texto tem sido alvo de diversas pesquisas, teses e estudos.
A questão é:  precisamos diminuir os ruídos ou então ficaremos loucos.
Não sugiro um voto de silêncio ou um tempo em um monastério (apesar de hoje entender melhor os monges). Não sugiro também que deixemos de lado todos os nossos relacionamentos, as redes sociais e outros tipos de comunicação. Só sugiro que, de vez em quando, deixemos um pouco de lado as pessoas , o smartphone (principalmente) e até os livros, pra passar um tempo a sós.

Tem uma música do Hillsong que é uma das músicas que mais amo, que começa assim: "Na quietude, no silêncio, eu sei que Tu és Deus". 

Precisamos de um tempo com a gente mesmo (demais). 
Precisamos saber quem somos sem a interferência das pessoas. 
Precisamos saber quem somos, quando não estamos fazendo algo. 

Precisamos pedir socorro pro nosso eu. 
Então, Ele vem nos socorrer.  

OBS: O título desse post foi retirado da música "Doce Solidão", do Marcelo Camelo, que foi a música que não saia da minha cabeça durante esse meu passeio na Praça da Liberdade. 




Um comentário:

  1. Amanda,
    Você tem um blog e não nos contou (rsrsrsrs)? Que bacana!
    Consegui identificar através do seu texto situações que passo em alguns momentos da vida!
    Deve ser muito bom conseguir expressar em palavras o que estamos sentindo e transmitir isto para as pessoas de uma forma tão espontânea!
    São poucos e raros os que conseguem fazer isto! Parabéns!
    Incentivou-me a rascunhar algumas coisas...
    Abração!

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