segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Porque estou solteira

Relutei muito em publicar este texto. Primeiro, porque não sou nenhuma ativista de movimentos pra solteiros, muito menos escolhi esperar pelo príncipe encantado. Segundo, porque tive receio de que este texto se transformasse em uma espécie de manifesto feminista, cheio de críticas e ressentimentos.
Não é essa minha intenção. Escrever torna-se necessário. Necessário porque, sem qualquer arrogância autoral, sei que o que escrevo expressa o sentimento de várias outras mulheres cristãs (ou não) que se encontram na mesma situação que eu.

Dito isso, vamos a polêmica:

Já perdi a conta de quantas vezes ouvi: "Nossa, uma mulher jovem, bonita como você, solteira? Como pode?". Isso talvez soe como elogio para alguns, mas pra mim soa mais como uma ofensa. Parece que por ser jovem, eu tenho a obrigação de ter um parceiro e o fato de não o ter demonstra minha incapacidade de encontrar um. Não farei aqui uso de modéstia: reconheço os meus atributos, assim como reconheço o de muitas amigas. Bonitas, jovens, inteligentes, cristãs comprometidas e... solteiras. Tenho amigas que me fazem ter este mesmo questionamento que incomoda. Como podem estar solteiras? Mulheres corajosas, engajadas, sonhadoras, simpáticas, comprometidas com o Evangelho e ainda assim sem um parceiro, apesar de estarem abertas ao compromisso. Não tem um meio em que vivo em que não existam dezenas de mulheres nesta situação. A partir daí surgem diversas hipóteses e a maioria delas, impressionantemente, coloca toda a responsabilidade sobre a própria mulher: "Vocês escolhem demais", "vocês estão muito independentes, isso assusta os homens", "você é legal, mas é demais pra mim", "não conseguiria corresponder às suas expectativas"... A lista do pacote de desculpas é interminável. Reconheço que algumas delas são pertinentes, como o nível de exigência e o alto grau de expectativas, mas será que tudo isso seria um problema feminino?!

Realmente, estamos muito exigentes. Não tem como não estar. Nossas antepassadas queimaram sutiãs, disseram que tínhamos direitos iguais, mas esqueceram-se de dividir a parte dos deveres, e nós acabamos pagando um alto preço por isso. Tivemos que aprender de tudo, a ser dez em uma e a trabalhar dobrado para conquistar aquilo que era exclusividade masculina. Mas uma coisa boa isso tudo gerou: ganhamos a liberdade de sonhar. Mais que isso, ganhamos o direito de batalhar pelos nossos sonhos e agarramos isso com unhas e dentes. Talvez pelos séculos obrigadas a ficar na inércia, passamos a sonhar alto e a conquistar muitas coisas grandes.
Quebramos barreiras, vencemos fronteiras, atingimos lugares não pisados por nenhuma de nossas familiares.

Falo por mim mesma e por outras amigas. Antes dos 20, já estive em oito países, com recursos próprios. Falo inglês fluentemente e nunca fiz mais que três meses de curso. Estou envolvida em cerca de cinco projetos diferentes, sendo um deles voltados para jovens com potencial de liderança e transformação.
Já morei em São Paulo sozinha, já tive que me virar em Macapá e na República Tcheca, já chorei em quarto de hotel cinco estrelas e em hostel nenhuma estrela, já dei o fora em vários caras que podiam me "oferecer muito" e não escolho meus pares por padrões convencionais. Parece um bom currículo, mas isso não é nada comparado ao de outras amigas. Tenho várias delas que antes dos 25 já conquistaram mais do que muita gente conquista em uma vida. Por que estou falando tudo isso?! Pra me promover?! Pra dizer o quanto eu e minhas amigas somos boas?! Pra mostrar todos os meus méritos em detrimento dos homens que conheço?! Na maioria das vezes, é assim que se interpreta. Quando uma mulher diz tudo aquilo que já conquistou, em geral é interpretada pelo sexo oposto como arrogante, feminista e independente demais. Nunca ouvi um homem solteiro fazer uma declaração de méritos de uma mulher com o mestrado que ela acabou de passar ou com os projetos que ela está envolvida. Os elogios sempre se limitam à parte física e à personalidade, apesar de um projeto como um mestrado ou uma viagem demandarem muito mais tempo do que um salão de beleza. Isso ofende. Desculpem-me, mas ofende. Estou dizendo que não gosto de ser elogiada?! Claro que não! É muito bom ouvir que se é bonita, mas é melhor ainda ouvir alguém reconhecer seu mérito e esforço em outras áreas. Talvez isso pareça coisa de mulher moderna, mas na descrição da "mulher virtuosa" em Provérbios 31, Salomão também parece ter percebido isso. Ele gasta diversos versos falando sobre a prudência, a sabedoria, a força, a confiabilidade e todo o árduo trabalho desta "mulher virtuosa". Ele só menciona a beleza ao final, simplesmente para dizer "enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa sim será louvada" (Provérbios 31:30). Será que Salomão não apreciava a beleza? Pelo outro livro que ele escreveu (Cantares) posso afirmar que ele apreciava, mas sabia que o valor e as virtudes de uma mulher estavam longe de residir somente nisso.

Mas o pior dos nossos dias não é a falta de reconhecimento dessas virtudes. Acredito que alguns homens até as reconheçam. O problema reside na ausência de atitude vinda do lado oposto (e aqui garanto que posso ouvir um "amém" da ala feminina). Eu sei, a maioria dos homens já está cansada de ouvir este argumento, mas é ele o mais verdadeiro. Enquanto a maioria das mulheres está buscando tudo isso que mencionei no parágrafo anterior, a maioria dos homens se limita a planos que nos parecem pequenos. Pequenos não em seu significado, mas em alcance. Nós sabemos que vocês podem mais. Sabemos que também podem sonhar com crescimento acadêmico, profissional e pessoal, mas o que se vê entre os homens, em especial os que se dizem cristãos, é uma passividade generalizada perante a vida. "Do jeito que está, está bom". Não quero aqui fazer coro a teorias positivistas do tipo "eu sempre quero mais" ou incentivar uma ingratidão generalizada pelo que se tem hoje. Não se trata de querer mais dinheiro, mais status, mais experiências. Trata-se de querer ser melhor a cada dia, de ter planos, metas, sonhos grandes. É isso que não temos visto.

Essa passividade também atinge diretamente os relacionamentos amorosos. Tenho amigos (e amigas) que interpretam o "curtir" do Facebook como aquele verso da música do Lulu Santos: "eu gosto mesmo de você e até prefiro esconder, deixo ficar assim subentendido". E parou aí. Inicia-se um jogo defraudador de "eu te curto e você me curte" e o homem não faz nada além disso. E como continua a música: "é uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer". Sim, porque se você está tentando conquistar uma pessoa apenas curtindo aquilo que ela posta ou escreve, lamento informar, mas isso vai continuar sendo só uma ideia na cabeça. Conquistar alguém exige muito mais que alguns "likes" e muito mais caracteres do que aqueles possíveis de serem escritos publicamente. Conquistar alguém demanda tempo, disposição e, principalmente, coragem. Coragem de sair da zona do orgulho, da timidez e até do amor-próprio, porque a conquista muitas vezes envolve a disposição de não ser correspondido.

Dia desses uma querida amiga e leitora do blog, Hellen Rodrigues, postou um texto em virtude daquela corrente "100 happy days" agradecendo por estar solteira. Ela compartilhou de sua gratidão por poder fazer escolhas que só poderia fazer nesta fase e também agradeceu por vários outros motivos.
Uma outra blogueira que gosto muito, Ruth Manus, escreveu um texto que deu o que falar, chamado "A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer" , em que expressa muito do essa geração de mulheres pensa.

Mulheres incríveis, ambas felizes, mesmo solteiras. Hoje eu posso dizer, agradecidamente, que me encontro neste grupo e tenho muitas outras amigas que também se incluem. Isto não quer dizer que não estejamos à procura de um par. Muito pelo contrário. Compartilhamos nossas angústias (várias delas apontadas neste texto), criamos grupos em redes sociais (morro, mas não conto o que a gente compartilha lá)e damos risada de nós mesmas, inclusive quando damos com a cara direto no muro (quando o boy magia não tem tanta magia assim). Alguns chamam de "grupo de apoio de cristãs encalhadas". Eu prefiro chamar de "grupo de apoio de mulheres que já descobriram que não vai adiantar esperar o príncipe encantado e decidiram fazer piada disso".

Eu já tive dois relacionamentos frustrados e acho que minha cota de fracassos já deu. Aprendi com os erros e segui em frente, mas me recuso a passar por algumas situações que já passei de novo.
Também continuo sendo sincera comigo mesma. Não deixo nada ficar "assim subentendido" e me abro quando estou realmente apaixonada. Nada de sair atacando feito metralhadora, mas já precisei me abrir pra conseguir seguir adiante.

Respondendo a pergunta que dá nome a este post, estou solteira por opção. Longe de mim ter escolhido esperar. A verdade é que não me resta outra alternativa e eu descobri que apesar de às vezes ser angustiante, a espera é uma fase maravilhosa. Uma fase em que tenho feito muito mais do que pensei que faria e que sei que não seria possível se tivesse que sonhar junto com outra pessoa. Uma fase em que não tem um dia em que não tenha algum lugar pra ir com minhas amigas ou família, o que gera momentos maravilhosos. Uma fase onde posso focar todo meu potencial e minhas habilidades no meu próprio crescimento e amadurecimento e não tenho que me preocupar se quiser estar a sós comigo mesma.
E sem demagogias, também estou solteira por uma questão óbvia: nenhum homem realmente interessante está interessado em mim. (Isso não significa que acabei de abrir um processo seletivo, PELO AMOR DE DEUS). Aquela máxima do "antes só do que mal acompanhada", aprendi a duras penas no ano que passou e não pretendo testá-la de novo. Eu não sei se terei um "amor à primeira vista" ou se o grande amor da minha vida já está debaixo do meu nariz. Só sei que decidi me dar o privilégio de ser conquistada, de parar de tentar encontrá-lo e deixar que ele me encontre.
O mais importante disso tudo é que eu posso colocar toda a minha energia no Grande Amor da minha vida, meu maior referencial de Homem, aquele que nunca me decepcionou, nem nunca vai me decepcionar: Jesus, autor e consumador da minha fé.

A despeito de todas as minhas questões pessoais, gostaria de deixar alguns conselhos. Vários textos neste blog já trataram deste assunto, mas gostaria de relembrar algumas coisas.

Mulher, não se sinta culpada por ser a mulher que você é e também não tente exigir que homem que você está interessada seja o Mr. Darcy. Continue sendo fiel à você mesma, mas lembre-se que Jane Austen expressou várias vezes que mesmo o Mr. Darcy possuía falhas no caráter. No mais, se o candidato a ocupar o lado direito do coração (ai, que brega!) ainda não chegou, aproveite ao máximo suas amigas, família e todas as chances que a vida lhe trouxer. Não fique no alto da torre esperando ele chegar. Até a Disney já mudou essa historinha furada. É mais fácil você encontrá-lo na jornada do que no alto dessa torre.

Homem, seja um homem de princípios, porque homens assim estão em falta. Seja íntegro, trabalhador, educado e temente a Deus. Não permita que as mulheres cristãs fiquem interessadas em homens que não são cristãos, porque o caráter deles parece melhor do que o seu, apesar de eles não conhecerem o Salvador. Seja luz na vida dessas mulheres, ainda que nenhuma delas seja sua esposa. Se você tem perspectivas, ótimo, continue investindo em seus objetivos. Se você não os têm, peça a Deus para lhe mostrar o que você pode não só fazer, mas principalmente ser por Ele.

E para ambos: sei que os tempos são maus e que a realidade anda desanimadora, mas como dizia o pastor Kaiser, meu pastor na adolescência, não negocie seus valores. O preço que se paga por negociá-los é muito mais alto do que se pode imaginar e o que Deus tem pra nós vai infinitamente além de um relacionamento bem sucedido.

Que a paz de Deus guarde nossos corações nos momentos de carência e principalmente na TPM.
Que nosso coração não fique preso somente naquilo que ainda não temos, mas que seja grato por aquilo que já conquistamos e por tudo que ainda virá.
Tudo no tempo certo. Tudo no tempo dEle.
Assim seja.

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