terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Do correr da vida em 2014- Parte I

Tem um poema que gosto muito do Guimarães Rosa que diz assim:

"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem".

Se tem uma coisa que aprendi com a vida neste ano foi a ter coragem. Coragem nas adversidades, coragem pra mudanças, coragem nas decisões, coragem no amor.

Talvez seja cedo pra fazer reflexões sobre o ano que passou, mas acho que se eu esperar mais um pouco, não vai caber tudo em um papel.

Eu passei a virada do ano de 2014 em um hospital. Não importava se era domingo ou se era segunda. Não importava se era 2013 ou 2014. Não importava o que viria. Eu só queria ter alguém que eu amava muito comigo nesse ano que se iniciava. Não houve festa, não houve champanhe, não houve promessas. Mas havia esperança. Havia muita esperança em cada um que estava ali.

E 2014 chegou.
Chegou bem diferente de 2013. No reveillon de 2013, eu estava em Praga, vivendo um sonho, vivendo o desconhecido, com uma sensação de liberdade e novidade que eu nunca havia experimentado.
Mas a vida é mesmo assim, já dizia Guimarães... Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa.

Entrei neste ano completamente rendida ao acaso. Não houve planejamento, lista do que eu queria que acontecesse ou esperava fazer acontecer. Entrei desejando cada dia como se fosse o último, pois fui apresentada de forma muito brutal à fragilidade da vida.
Hoje estamos, amanhã não estamos mais.

Minha avó estava internada devido a um tumor que pegou a todos de surpresa, inclusive a mim.

Antes desta surpresa, eu esperava ansiosamente por uma ligação. Uma ligação que me traria de volta a vida que eu tanto amava, que eu acreditava ser o que me trazia significado. A ligação que me faria retornar a Aviação. Esta ligação veio, mas como numa estória do Bardo, veio de surpresa, sem pestanejar, sem esperar que eu me preparasse. Minha avó estava se preparando para a cirurgia no dia em que a Gol ligou, me convidando a voltar. Eu não tinha a menor condição de ponderar aquela escolha. Após um ano e meio refletindo, eu ainda não tinha a resposta, quanto mais naquele momento. Pareceu-me correto dizer sim, pois ao menos o sim me daria a chance de dizer não depois. E foi o que eu fiz.

Duas emoções completamente distintas. De um lado, uma tristeza enorme por ver minha avó naquela situação. De outro, a alegria de retornar àquilo que eu amava. Não tive muito tempo pra sofrer ou me alegrar. Tive que administrar as duas emoções juntas e seguir a correnteza da vida, porque ela é assim: não espera, não faz perguntas... "o que ela quer da gente é coragem".

Adeus, Direito, adeus, vida que eu conhecia há poucos dias. Olá novamente, aeroportos, voos, São Paulo, pessoas diferentes, ausência de rotina.

Quem dera tivesse sido fácil assim. No momento em que o avião decolou de Belo Horizonte, me levando para o exame admissional, eu fiz a escolha mais difícil da minha vida: "Não vou voltar a voar". Ao ver as luzes da minha cidade ficando pra trás, minha avó em uma cama de hospital, tudo que eu tinha construído se tornando miniatura, eu decidi tomar um rumo completamente diferente do que todos esperavam e até o que eu mesma esperava. Não me via mais voando, não me via mais comissária.

"Como assim? Depois de tanto tempo? Não era o que você falava tanto?!".
Era, mas isso antes de eu viver tudo o que vivi no meu tempo em terra firme.

Só que a vida nem sempre torna as escolhas fáceis. Reencontrei os colegas, reencontrei o lugar que aos 18 anos me deu a experiência que ser humano nenhum que me conheça será capaz de um dia entender, reencontrei meu uniforme, reencontrei o glamour que apesar de tão pequeno ainda reside nesta profissão, reencontrei a liberdade que a Aviação me dava pra ir aonde quisesse, ainda que não fosse rica... Reencontrei sonhos antigos e uma Amanda muito feliz e realizada, que não reencontrava há tempos. Era de se esperar que eu decidisse me arriscar de novo.

Eu me arrisquei e não me arrependo nem um segundo sequer por isso. "Atrasei" um semestre na faculdade, tive que tomar decisões difíceis, tive que ficar longe durante um mês, mas como diria Roberto Carlos, "se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi"...

No nosso último dia de treinamento na Gol, usei uma frase de Heráclito que gosto muito: "Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou".  Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Não era a mesma pessoa voltando para a mesma empresa. Era uma nova Amanda, que agora tinha estudado Direito, feito trabalho voluntário, morado na Eslováquia, feito amigas-irmãs de mais de cinco países e que agora entendia que não existe nada mais importante na vida do que pessoas.

Refiz todo o treinamento da empresa, passei por todos os testes, fiz meus voos de instrução e check. Fui de novo pra Natal, São Luís, Goiânia, Brasília e tantos outros lugares. Revivi a expectativa de ver a escala, de saber onde iria "pernoitar". Tentei aproveitar ao máximo cada cidade que ia e passava o menor tempo possível dentro de quarto de hotel, mas a solidão chegava e apesar de mais velha e mais madura, eu não lidava com ela da mesma forma. Ligava pra casa e sabia que minha avó não estava bem. Queria estar perto dela naquele momento. Sentia falta da faculdade, de poder discutir assuntos sérios no trabalho, de poder participar de cada evento de família e amigos, de viver uma vida mais linear. Eu entendo que muitos queriam estar no meu lugar e sei o quanto foi difícil chegar ali, mas não permito que ninguém me julgue por estes conflitos. Só estando na pele de um tripulante pra saber tudo que ele passa e tem que lidar. Só estando na minha pele pra saber a quantidade de coisas que eu tive que lidar ao mesmo tempo.

Então, num determinado dia em Fortaleza, eu estava correndo na orla da praia. O céu estava azul e era um dia lindo. Eu poderia achar qualquer motivo para estar feliz, mas não era assim que eu me sentia. Como se quisesse combinar com meu humor, o céu de repente fechou. Eu estava em uma ponta da Praia do Futuro e o hotel ficava na ponta oposta. O céu desabou e eu desabei junto com ele. Voltei correndo na chuva, sem me importar com o aspecto assustador que o mar tinha ganhado e o dia junto com ele. Pela primeira vez, o exterior se parecia com meu interior. Foi como o prenúncio do que viria a seguir. Liguei naquela noite pra casa e minha avó estava no hospital. Eu sabia que não ia dar conta. Tive uma crise nervosa no quarto sozinha e cheguei ao ponto de nem saber mais porque estava chorando. Só conseguia chorar, chorar e chorar, até perder o fôlego e as lágrimas secarem. Vesti meu uniforme e me olhei no espelho. Pensei em tudo que aquele uniforme me trazia e em como as pessoas me viam por causa dele. Não foi suficiente. A decisão estava tomada. Orei a Deus e pedi que me desse forças pra me manter firme.

Sabia que seria meu último voo: Fortaleza- Guarulhos - Porto Alegre- Guarulhos.
Voltei pra São Paulo na minha folga e pedi demissão.
Contando esta história agora, eu vejo o quanto Deus é real. Eu jamais teria conseguido sozinha. Minha família, amigos, quase não acreditaram, mas mesmo assim me apoiaram. Graças a Deus por eles, que mesmo vendo toda a minha confusão, não me julgaram e me apoiaram.

As pessoas sempre me perguntam por que tomei essa decisão. Perguntam se caso minha avó não estivesse doente, eu faria a mesma coisa. Eu nunca terei esta resposta. Cada escolha, uma renúncia. Nunca saberemos o "se". Uma coisa eu respondo com convicção: Não me arrependo nem por um segundo de tê-la tomado.

No dia em que fui pedir demissão, uma "Jesuscidência" me deu certeza de que estava no caminho certo. Na sala de embarque lotada de Confins, eu encontrei um casal de missionários da Jocum. Eu ainda estava com meu crachá e ainda tinha a chance de voltar atrás. Olhava pro avião e só conseguia chorar, me perguntando porque a vida tem que ser tão difícil às vezes. Corri pra conversar com o Tio Pedro e a Tia Rê, esses queridos missionários, e contei toda a história pra eles. Depois de me ouvir pacientemente , a Tia Rê olhou nos meus olhos e me disse uma coisa que eu nunca mais vou esquecer: "Amanda, se você decidir ficar, Deus vai te abençoar. Ele te ama e vai te abençoar qualquer que seja sua escolha. Agora, pra que a gente possa ver milagres acontecendo, precisamos dar passos de fé. Partir pro desconhecido dá medo, mas é ali que Deus faz as coisas mais surpreendentes da nossa vida".

Então, lá estava eu de novo, partindo pro desconhecido. Partindo pro nada, porque não tinha nada em que me agarrar. Não fazia ideia - e ainda não faço- do que seria da minha vida. Me dei conta de que eu era muito mais segura aos 17 anos do que sou agora. Hoje tenho mito mais perguntas do que respostas.

Uma coisa eu tenho certeza que nunca perdi e essa eu espero jamais perder: a coragem.
Melhor ainda se eu conseguir manter a serenidade e a coragem como naquela da Oração da Serenidade:

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária
para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das outras".

Lá vou eu de novo, rumo ao desconhecido. No fundo, acho que é como dito no livro "A viagem do peregrino da Alvorada", de "As Crônicas de Nárnia": "Acho que todos nós temos um país secreto, que, para a maioria, é apenas um país imaginário"
.
Acho que o que todos nós buscamos de fato não poderemos encontrar aqui. Perguntas, respostas, anseios, sonhos, medos, frustrações... Tudo isso converge para um único propósito, que é nos levar para este "país secreto".

Posso não saber o fim da minha vida, mas sei como quero vivê-la.
Posso não ter controle sobre as circunstâncias, mas quero aprender a passar por cada uma sem perder a coragem.
Prefiro morrer a perder a vida, já dizia o saudoso Chaves.

Se tem uma coisa que o correr da vida me ensinou em 2014, foi a caminhar segurando na mão de Deus, mesmo sem saber exatamente pra onde Ele está me levando. Sem essa mão me sustentando, eu não seria capaz de prosseguir. Sei que ela pode te sustentar também.
Continua... 










Um comentário:

  1. Não há nada melhor do que o caminhar segurando na mão de Deus!
    Texto lindo, Amanda!
    bjo

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