sexta-feira, 13 de março de 2015

Angústia de quem não é artista

Queria fazer um poema, uma canção, uma pintura.
Algo que trouxesse leveza, que trouxesse paz
Que tirasse as pessoas um pouquinho dessa realidade tão dura.

Algo que as fizesse esquecer por um instante de crises, governos, preços e dinheiro.
Que trouxesse um pouquinho de paz, em meio a tanto desespero. 

Queria fazer algo pelos outros, como os artistas fazem por mim.
Me tiram da minha realidade, me fazem ir pra longe,
Fazendo bagunça como Arlequim .

Queria ser capaz de pintar como Caravaggio, de compor como Beethoven,
Fazer poema como Drummond e interpretar como os atores do Galpão.
Alguns diriam: "Mas isso é muita pretensão".
Faço minha defesa: não tenho tamanha presunção.

Só queria compor por um instante, um pouco desta admiração.

Queria ser capaz de escrever um livro, algo que encantasse como Nárnia.
Queria ao menos saber fazer poesia, falar com a maestria dos poetas.
Mas não sei métrica e já desisti de continuar a rimar .

Lembro-me das palavras de Drummond*:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?


Mas eu não tenho a chave, meu doce poeta. 
Quisera eu ter a chave.

Essa é angústia dos que não são artistas: Terem que se deleitar na beleza da arte alheia.

Se Deus separou os artistas, então que eu seja ao menos quem os rodeia. 

 *Poema: "Procura da Poesia", Carlos Drummond de Andrade.


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