segunda-feira, 27 de abril de 2015

Carta ao meu amigo "desviado"

Oi, amigo! Tudo bem?!

Faz tempo desde a última vez que nos vimos, hein...
Como o tempo passa rápido! Parece que foi ontem que estávamos indo juntos pra igreja e dando risadas de coisas bobas da adolescência.
Muita coisa aconteceu desde então, tanto na minha, quanto na sua vida. Mudanças que seriam ainda mais aparentes, se não tivéssemos mantido contato pelo Facebook.

Sinto saudades daquela época. Mesmo tendo sido uma época restritiva, nós fomos felizes. Eu sei que hoje talvez você não pense assim, mas eu lembro do seu rosto e acho que você parecia feliz.

Me disseram outro dia que você se "desviou".
Você sabe o quanto eu acho essa expressão tosca, mas eu consegui entender o que quiseram dizer.
Você não está mais na igreja. Você não frequenta cultos, faz coisas que o "mundo" faz e não acredita naquilo que acreditava antes. Esse conceito me deixa irritada, porque sabemos quantos estão apenas ocupando banco na igreja e não são considerados "desviados".

Acho que nos conhecemos o suficiente pra você saber que detesto hipocrisia e que jamais julgaria o que você anda fazendo, mas confesso que eu fiquei triste, amigo. Não fico triste pelo que você faz ou deixou de fazer. Se você fizesse qualquer coisa, mas ainda acreditasse naquilo que te movia há alguns anos atrás, eu até ficaria em paz. Mas você brigou com Deus. Você não só não o segue mais, como também O rejeita. Você pode achar que é exagero, mas sabemos que é verdade. Todos os deuses hoje lhe são verdadeiros e lhe cabem, mas se alguém falar de Jesus Cristo, como único Caminho, Verdade e Vida, você se exaspera e sai atirando pra todo lado, como se qualquer seguidor da Cruz fosse seu inimigo.

Sabe o que me deixa mais triste?! É que, no fundo, acho que você não odeia Deus. O que você odeia é essa ideia que te apresentaram de Deus. Acredito que se tivéssemos continuado a entendê-Lo como no início da nossa conversão, você não teria brigado com Ele. Mas te colocaram amarras. Disseram que pra merecermos a Deus precisamos fazer isso, isso e aquilo. E aquilo outro também. Parecia tão difícil, não é?! Eu também me sentia inadequada e incompetente. Sei o que você sentiu quando virou as costas.  Pra ser bem sincera, queria te confessar uma coisa: eu também me "desviei". A diferença é que eu permaneci frequentando a igreja e agindo como crente, à vista das pessoas.

A igreja me feriu, assim como feriu você. Me senti abandonada em vários momentos e me foi dito que eu é quem deveria aprender a "ser igreja". Era como se eu não entendesse aquele sistema, que funcionava aparentemente de modo perfeito. Eu parecia inadequada, porque não entendia muitas coisas e quando precisei de ajuda, tive que aprender a me levantar sozinha. Sozinha não, porque não posso ser injusta. Foi bem nessa época que descobri que "ser igreja" está longe de ser sinônimo de frequentar a mesma igreja. Gente que eu nem imaginava me ajudou e então eu fui voltando pros trilhos. Disseram que eu me isolei, assim como falaram de você. O problema é que enquanto estamos sentados naquele banco, não estamos isolados. Apenas quando viramos as costas é que parece que algo começou a acontecer, quando na verdade isso é só a pontinha de um iceberg.

Começa com as contradições que começamos a perceber, depois, vem a descoberta de que a maior parte das igrejas não está preparada para lidar com imperfeições.
Dizem que ali é um hospital e, portanto, um local para doentes. Essa metáfora é perfeita, uma vez em que num hospital cada doença é tratada de uma maneira diversa. Isso não seria de todo errado, não fosse o fato de que nem sempre as doenças mais aparentes são as mais graves.
Se seu estado não é grave, seu problema não é tão grande e pode esperar. Se você começou a dar sinais de uma doença mais séria, uma atenção maior é lhe dada e já começam a observar com mais cuidado. Se seu estado é grave, é quase certo que todos lhe darão atenção. Agora, se você tem uma doença gravíssima, daquelas que ninguém quer mexer, é bem provável que você vá para o isolamento, ou então seja tratado como se não estivesse ali, sendo ouvido apenas algo como "boa sorte".

É assim que eu vi a igreja, amigo. Comecei a perceber que existiam "dois pesos e duas medidas", ainda que a balança injusta seja abominável aos olhos do Senhor.
Disseram que "toda igreja tem problema" e que "todo mundo é imperfeito, portanto toda igreja é imperfeita", mas nem sequer tentaram compreender ou ouvir. É difícil romper com antigas tradições e não se mexe em time que está ganhando.

Por causa disso, você e vários outros amigos nossos tomaram raiva de igreja e eu pude entender depois o que vocês passaram.
Lembro quando lhes chamaram para "conversar". Lembro do quanto tentaram lhe impedir de pensar além daquelas quatro paredes, sendo permitido apenas concordar ou ir embora. Lembro de como colocaram seu pecado acima de outros. Lembro que não podíamos falar de assuntos polêmicos ou tratar as doenças profundas da alma, que nos corroíam por dentro ainda que levantássemos as mãos todos os domingos no louvor.

Isso não passou batido, amigo. Eu vi isso tudo. Eu até pensei em lhe procurar naquela época, mas você estava tão ferido e tão resistente, que eu preferi não me aproximar. Tal qual um animal acuado, você criou medidas para que ninguém se aproximasse e rosnava a qualquer menção do passado. Me arrependo de não ter o procurado nessa época. Talvez tivesse lhe poupado o sofrimento que veio depois disso ou pelo menos teria lhe ajudado a carregar este fardo.

Quero te pedir perdão, amigo. Sei que já passou muito tempo, mas isso ainda me dói. Te deixei sozinho no momento em que você mais precisava de mim. Não fui igreja pra você. Eu, que tanto julgava e condenava as negligências, fui negligente. Fingi que era normal tudo isso que você estava vivendo. Vi você se jogar num buraco e não fiz nada.

Por isso lhe escrevi esta carta.
Para rasgar o coração diante de Deus e de você e pedir que me perdoe.

Eu, sinceramente, lhe peço perdão.
Peço perdão pelas feridas que a igreja lhe causou, porque se ela as causou, eu também as causei.
Peço perdão por ter me julgado superior a você, porque eu faço "isso, isso e aquilo outro" e você não.
Peço perdão por não ter lhe ouvido, no momento que você queria se abrir e por ter lhe colocado medo de falar do seu pecado. Eu também tenho pecados, meu amigo, se bobear, maiores que os seus. Caí no erro da hipocrisia que eu tanto condenava.
Peço perdão por não ter lhe dado atenção quando seu problema era "pequeno" e por ter criado uma lista de prioridades dentro da igreja.
Peço perdão por ter te abandonado nessa corrida, porque me dói muito não te ver correndo ao meu lado mais.

Só agora, quando olhei pra trás e vi tantos caídos, é que me dei conta.
Só agora me dei conta que mesmo aquele que senta ao meu lado todos os domingos, ficou lá trás, apesar de parecer que está correndo.

É muito triste, amigo.
É profundamente triste ver que hoje você não acredita em mais nada.

Ah, se você pudesse ver o que eu vi quando caí!
Se pudesse ver os olhos doces e a poderosa mão do Salvador a me reerguer. Se pudesse sentir, pela primeira vez, uma graça infindável transbordar no seu coração, perdoando e levando toda culpa.
Ah, meu amigo! Aquele homem de Nazaré não é nada daquilo que nos falavam! Só nos apresentaram parte Dele! Talvez nós é que tenhamos decidido conhecer só parte Dele.
Eu hoje me sinto parte de algo tão grandioso, de um plano tão perfeito, que nada mais importa.
Ah, amigo, eu não temo mais a morte! Eu sei que você ainda a teme. Eu sei que você tem medo de que essa porta se feche e que você não consiga obter as respostas que pretende encontrar um dia.
Ele abriu todas as portas e lugares escuros dentro de mim e hoje posso ver o que eu não via.
Eu hoje penso no meu Salvador vindo em glória, enxugando de nossos olhos toda lágrima e nos dando alegria eterna. Tal qual Lucy Pavensie de "As Crônicas de Nárnia", veremos o Leão e diremos com toda certeza: "eu sabia que você viria!".
Tão certo como existe o sol, meu amigo, Ele nos ama e nos libertou.

Não me importa quais autores você hoje leia, quantas religiões você hoje conheça e a quantos você acredite. Sua intelectualidade nunca me enganou e eu espero que ela não te destrua, mas eu sei que você ainda se atemoriza  ao ouvir o som desse rugido.

Amigo, a igreja realmente pode ferir as pessoas. Nós também podemos.
Eu gostaria de lhe dizer que as coisas hoje são diferentes e que as questões que lhe incomodavam já foram resolvidas, mas isso seria mentira, além de ser bem arrogante querer formar uma igreja apenas para nos agradar. Mas eu vejo esperança.
Vejo gente torta tentando endireitar umas as outras em amor; vejo pessoas misericordiosas entregando suas vidas por uma causa que não lhes trará nenhum reconhecimento e que ninguém irá lhes pagar nada; vejo pessoas largando empregos, bens, conforto, para morar em taperas ou casebres no interior de algum país, sem saber se vão voltar aos seus lares algum dia, tudo isso em favor de algo que vai além de sua própria existência; vejo gente deixando de sonegar impostos porque conheceu o Evangelho; vejo gente repartindo o pão; vejo gente orando por mim; vejo gente que me lembra a Cristo.
Apesar desse hospital ainda estar meio desorganizado, ainda existe muita gente com uma compaixão que faz nosso coração transbordar.
Gente que às vezes é o homem caído na estrada, às vezes é o homem que passa direto e que às vezes é bom samaritano.
Aquela história de uma igreja em vestes limpas é o final da história, amigo. Jesus salvou foi a esposa de Oséias, uma mulher sem honra e que o rejeitou por diversas vezes. Uma mulher que se prostituiu e se sujou, mas que o sangue do Amado lavou. É essa a igreja que Ele vem buscar. Eu acho isso lindo demais.

Eu espero que você volte um dia. Não digo para a igreja. Espero que você volte para o Pai. Tal como naquela música do Stenio Marcius, imagino Ele no portão te esperando voltar. Sei que Ele está lá todos os dias.
Ao lhe escrever essa carta, pude sentir a dor de Seu coração.
Ele deixa noventa e nove ovelhas pra ir atrás daquela que está perdida e só volta quando a encontra.
Espero que você volte pra igreja também. Acredite em mim, apesar das feridas que você já teve, estar ali é bom . É bom conhecer gente que tá trilhando o mesmo caminho que o nosso e encontrar gente boa, que nos ajuda na hora que é preciso.

Peço desculpas pela carta tão longa, mas tais palavras têm estado abafadas por muito tempo.
Peço desculpas também por não tê-la escrito antes, mas acredito que em tudo o Senhor do Tempo tem um propósito.

Igreja não é feita por mãos de homens e se nós somos a igreja, podemos sê-la quando você quiser. Pode ser em um café ou na minha casa, não importa.

Aguardo revê-lo, o mais brevemente possível.
Só não estou mais ansiosa do que Aquele que um dia você conheceu e amou.

Um enorme abraço, meu amigo, e que a graça do Senhor lhe guarde nessas terras distantes!

No amor que nos faz um,

Amanda.
Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida até que venha a achá-la?
L
Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida até que venha a achá-la?
Lucas 15:4



















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