quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sobre graça e favor imerecido

Ontem escrevi uma carta que ganhou uma repercussão que jamais pensei que fosse atingir.

Que alívio saber que tem mais gente pelo mundo que consegue olhar o próximo com amor e compaixão, ao invés de jogar pedras. Por outro lado, não é direito meu me vangloriar de nada, porque essas palavras não são minhas, mas de outro Autor que vêm dizendo isso há milênios e a humanidade insiste em não obedecer.

Ocorre que eu demorei muito pra entender o sentido da palavra “graça”. Só quando errei feio, errei rude, como a Fabíola e a moça do texto é que finalmente olhei pros olhos do meu Salvador. É só por isso que consigo agir como Ele. “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (gosto mais dessa tradução). A gente fala isso repetidamente na oração do “Pai Nosso”, mas não se atenta à profundidade dessas palavras. Só quem entende o que é ser perdoado pode perdoar de verdade. Só quem já teve o fardo do pecado tirado de suas costas pode entender o alívio que o outro sente quando isso acontece.  E não se enganem: não adianta falar “crentês” com fluência pra dizer que entende esse perdão. Eu já era crente há anos quando finalmente o entendi.

Talvez você já tenha passado por isso ou esteja passando agora. Ao escrever pra Fabíola, descobri que muitas pessoas, mesmo não tendo tido seus pecados expostos publicamente, gostariam de receber uma punição tão severa quanto a dela. Pessoas, que assim como eu, se sentem completamente inadequadas pra Deus ou sentem que só quem faz tudo certinho é que é digno da graça.

Era assim que os fariseus e escribas que queriam apedrejar aquela mulher pensavam.  Eles não só se colocavam como juízes sobre os outros, mas também sobre si mesmos. Julgavam que sua própria justiça poderia salvá-los. Penso que eles não se arrependeram ao largar aquelas pedras. Se eles tivessem se arrependido, teriam ficado e pedido perdão ao Senhor e a moça pelo que intentaram fazer. Ao se depararem com a misericórdia e graça que o Messias apresentava de forma tão simples e gratuita, sentiram-se humilhados, mas não em uma humildade que leva ao arrependimento e sim em arrogância religiosa. Eram homens que sabiam o Antigo Testamento de cor, estudavam a Bíblia mais do que qualquer outro grupo da época, cheio de “boas” obras, zelosos com as tradições e aguardavam o Messias, conforme seus pais os haviam ensinado. Todavia, o que estava diante deles era um homem simples, de olhar amoroso, que não exigia nada em troca pelo que fazia e deliberadamente perdoava uma mulher que, além de adúltera, pelo contexto da época deveria ser analfabeta e não educada na Palavra. Ela não cumpria qualquer requisito religioso pra ser digna do amor do Deus encarnado e, ainda assim, Ele a perdoou. Isso cai como uma bomba na mente e coração de qualquer religioso, inclusive na minha e na sua. Não é à toa que Jesus disse que  se a nossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entraremos no Reino dos Céus (Mateus 5:20).

Talvez pregar esse Evangelho para os outros não seja tão difícil pra você, mas ainda assim seja impossível acreditar nele para sua própria vida, como é pra mim. É por isso que o Evangelho hoje não é atraente para as pessoas do nosso século. Parece impossível que possa existir um Deus para o qual eu não precise fazer nada, aliás, um Deus para o qual nada do que eu faça mude suas motivações. Claro que não falo aqui do poder de Deus para mudar circunstâncias, mas de salvação, de amor, de favor imerecido. Quando você crê Nele e genuinamente se arrepende dos seus pecados, Ele te perdoa dos seus pecados passados, presentes e futuros. Quando você entende sua condição caída e Ele lhe dá nova vida, formando uma nova criatura, você é aceito, amado, perdoado. Significa que você nunca mais vai errar? Com certeza não. Significa que Ele já sabia que você cometeria esse erro, ainda assim te salvou.

Quando erramos, temos enorme dificuldade em aceitar todas essas verdades. Quando cometemos pecados “maiores” então, nem se fala. A vontade é se enfiar num buraco e ficar lá até morrer. Nesse contexto, milhares de pessoas se “desviam” todos os dias. Não conseguem mais encarar a igreja, sua liderança, seus amigos crentes ou conviver com qualquer coisa que remeta ao Evangelho. Como “plus”, ainda temos aqueles irmãos, que ao invés de fazerem o papel santo de nos exortar em amor, como Jesus fez com aquela moça, nos julgam e ainda expõem nossos erros pra mais gente ainda. 

Encarar nossa própria imundícia é doloroso demais e mais difícil ainda é aceitar que Alguém pode nos limpar de graça se confessarmos os nossos pecados.

Como eu sei disso? Porque eu passei por todas essas coisas. Me desviei frequentando uma igreja. Me sentia uma falsa e hipócrita, ainda assim não tinha coragem de aceitar o favor imerecido do Senhor. Essa falsa humildade na verdade é uma forma de orgulho. Aceitar que não depende da gente dói demais.

Por isso, minha oração é por você, que hoje se encontra nessa posição. Pode ser que não frequente uma igreja há anos, seja líder de ministério ou mesmo um pastor. Se você errou, não tenha medo de buscar perdão. O mesmo Homem que olhou para aquela mulher, quer te olhar também; o mesmo favor que a alcançou, pode te alcançar também. Ele resiste ao soberbo, mas seu favor está com os humildes.

Não fique nem mais um dia fora desse amor.

Essa oração é minha também.

Que corramos sem pensar duas vezes.

No amor de Cristo,


Amanda. 


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