segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

CHEGADAS E PARTIDAS

Dia 30 de dezembro de 2012. Dirijo-me ao aeroporto. O medo misturado ao desejo pelo novo fazem meu coração disparar. Eu sabia que diante de mim estavam dias que marcariam para sempre a minha vida.

Dia 30 de dezembro de 2015. Dirijo-me ao aeroporto. Dessa vez, para buscar meu irmão que ficou nos Estados Unidos quase um mês com minha outra irmã. Não há novidade, não há ansiedade pelo novo, a não ser a de rever meu irmão. Não fui eu quem embarquei.

Ir a um aeroporto pode ser tarefa simples para muitas pessoas, mas para mim é como colocar um vulcão em erupção. Coisas que ficam quietinhas lá dentro de mim, de repente vêm à tona numa velocidade absurda. Milhares de memórias, sensações, sonhos e aflições se levantam lá dentro. Lembranças de uma Amanda que muita gente não conheceu e que quando falo hoje, pareço falar de outra pessoa.

Pra quem não sabe: Fui comissária de voo por um ano e três meses. É uma longa história que já contei em outros textos e que representa capítulos muito importantes da minha vida. Essa profissão me deu condições financeiras de fazer um intercâmbio quando saí da empresa, que também foi um marco em minha história. Embarquei no dia 30 de dezembro de 2012 pra essa viagem e nunca mais voltei a mesma.

Não vem ao caso agora contar detalhes dessa experiência, mas o que posso dizer é: eu já fui aquela pessoa com uma linha do tempo "invejável" no Facebook. Vivia experiências incríveis, estava sempre em lugares diferentes e tinha acesso a um padrão de vida que não era o meu. Aos olhos dos outros, eu não tinha uma rotina comum e isso as fazia pensar que minha vida era muito mais interessante que a delas.

Eu já fui a pessoa que está sempre embarcando. Antes dos vinte, já tinha viajado duas vezes pro exterior com meu próprio dinheiro. Conheci o Brasil literalmente de norte a sul e coloquei oito países na conta. Morei sozinha em São Paulo e qualquer lugar do Brasil estava a um passe de distância das minhas mãos. Vivi em cerca de três anos coisas que muita gente não vive em uma vida. Isso pode parecer pouco se comparado a outras histórias, mas garanto que vivi muito mais do que todos que vivem na minha realidade poderiam imaginar.

Embarques e desembarques de avião faziam parte da minha vida como hoje descer e subir do ônibus faz - claro que numa versão menos glamourosa e emocionante. Ocorre que mesmo a rotina mais incomum também pode virar rotina e deixar de ser novidade. Deixei aquela vida tão interessante aos olhos de outras pessoas para encarar uma vida "normal" de estagiária e estudante, de pouco dinheiro e nenhum pra viajar, de rotina maçante e sem muitas novidades, de sonhos que demorarão certo tempo pra se realizarem.

E agora eu me encontro ali, parada diante de um portão de desembarque, esperando meu irmão chegar. Não estou entre os que embarcam, não estou entre os que acabaram de voltar depois de viver coisas incríveis e não tenho história nenhuma pra contar. Eu sou só mais uma na multidão. Voltei a estaca zero.

Talvez, olhando a vida de outras pessoas-  especialmente o Facebook de outras pessoas-  você tenha a sensação de que sua vida anda sem graça e de que Deus não fez grandes coisas por você. Palavra de quem já viveu "grandes coisas": Tais coisas nunca foram suficientes para preencher o coração de ninguém. Tenha certeza de que por trás de muitos Instagram´s  cheios de coisas maravilhosas, existem pessoas infelizes se sentindo incompletas. É óbvio que não estou generalizando, mas além de ter sido uma dessas pessoas, eu pude levar várias delas como passageiras em meus voos. 

Toda essa angústia pelas diversas voltas que a vida dá e por não entender como uma mesma data pode ser tão diferente uma da outra, mesmo em tão pouco tempo, me fez lembrar de alguns textos que gosto muito. 


O capítulo 3, do livro de Eclesiastes, diz o seguinte:


"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu" v.1

(...)

"tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora". v.6

Jeremias 29:11, por sua vez, diz:

"Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais".

Esse verso por si só já diz muito sobre os pensamentos soberanos de Deus a nosso respeito, mas continua nos versos 11 e 12: 

"Então, me invocareis, passareis a orar a mim, e eu vos ouvirei.
Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração". 

O que Eclesiastes, Jeremias, embarques e desembarques, tem  a ver com o início de um novo ano? 

Tem a ver o lembrar que Deus está no controle de TODAS as coisas. É Ele quem determina quem embarca e desembarca; é Ele quem diz quem vai, quem chega e quem espera; é Ele quem tem o domínio de tudo e em TODAS essas coisas há uma beleza única, pois cada história é ÚNICA no mundo. Não podemos todos embarcar ou desembarcar ao mesmo tempo. E sabe por que Deus faz isso?! Porque no fim das contas, tudo que precisamos é voltar o nosso coração a Ele. 

Eu gostaria de poder dizer que oramos ao Senhor com a mesma intensidade, em todas as fases da nossa vida, mas sabemos que isso não é verdade. No momento em que a novidade deixa de ser novidade e que a dureza esmagadora da vida nos aflige é que nos damos conta do quanto dependemos Dele e somente Dele. "-Então quer dizer que Deus faz barganha conosco?!". De forma alguma! Nós é que barganhamos com Ele. Dizemos: "Senhor, me dê a chance de embarcar nessa viagem. Eu creio que essa experiência vai ser ótima! Por favor, Deus, nunca te pedi nada demais!". Em sua infinita bondade e sabedoria, muitas vezes Deus permite que embarquemos e qual a primeira coisa que fazemos quando isso acontece?! Viramos as costas novamente e reiniciamos o ciclo "pedir-obter-gratidão-ingratidão-pedir de novo". 



Não queremos lidar com todas as fases da vida, não queremos passar por todas as estações. Queremos sempre a primavera, temperatura amena, ventos tranquilos e frutos em todo o tempo. Queremos viagens, passeios, alegrias, sorrisos, novidades e uma vida para que os outros tenham inveja. Não queremos a dor da enfermidade na família, a ausência de recursos financeiros, a dor da solidão, do luto, do medo, da incerteza. 



Eu, assim como você, tenho muitas perguntas sem respostas sobre o ano que passou. Questionei por diversas vezes por que a vida tem que ser tão complicada, tão difícil, tão dura. Questionei o porquê de o mundo ainda ter tantas aflições e até quando teremos que suportá-las. Gostaria de dizer que fui mais grata e mais sábia, mas o último ano foi mais de perguntas do que de respostas pra mim. 



Todavia, com toda tempestade que passei, que fez meu ano parecer ter passado como um vendaval, eu pude sentir a voz de Deus me dizendo em todo o tempo: "Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito... pensamentos de paz e não de mal para vos dar o fim que desejais". 

Em última instância, se pensarmos bem, não importa quantas aflições tivemos no ano que se passou ou quantas ainda teremos que passar: o fim que desejamos, a alegria suprema (vide John Piper), o bem maior, é o que nossa alma realmente anseia e isto o nosso Salvador nos concederá, talvez nessa vida ou na vindoura, mas que com certeza, virá! Para quem não tem essa esperança, toda a vida perde o sentido. 

Eu gostaria de dizer que vivi todas as palavras acima no ano de 2015, mas estaria enganando a vocês e a mim mesma. Não foi tão lindo quanto parece. Por diversas vezes, Deus me sussurrou isso e eu ignorei. Por muitas outras, ouvi e virei as costas, como se o que Ele dissesse não bastasse. Vacilei, fraquejei na fé, de uma forma que nunca fiz antes. Deixei meus fardos em meus próprios ombros, me apeguei ao passado, quis viver uma vida com a mesma intensidade e alegria de anos atrás. 


Mas hoje eu estou aqui, pela misericórdia e bondade de Deus, em um portão de desembarque, vendo um novo ano chegar. Apesar de não ter nada de extraordinário acontecendo aparentemente, eu tenho a convicção de que "meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a Terra" e que Ele tem pensamentos mais altos e mais elevados que os meus e há de me dar o fim que tanto desejo. 



Há também de chegar o dia em que serei eu novamente embarcando num daqueles portões para viver coisas extraordinárias, coisa que nenhum ouvido ouviu ou qualquer olho viu. Coisas que vão além dessa vida, além da morte, além de todo tesouro corruptível dessa Terra. 



A você que me lê: Não importa onde você se encontra neste momento. O que era, já foi. Diante de você, estão novas oportunidades, talvez não de um ano melhor, mas de uma nova forma de encarar a vida. 


Deixe Jesus mudar seu modo de ver a vida. Deixe-O plantar os sonhos Dele em você neste ano que se inicia. Não temos garantia nenhuma que veremos o ano de 2017 chegar. Não temos sequer garantia de que veremos o dia de amanhã. Deixe que Ele seja mais que uma filosofia, que um profeta ou "agitador qualquer". Deixe que Ele se revele como o Cristo, o Filho do Deus Vivo.


Por fim, tome essas palavras de Paulo, assim como eu tomei para mim, como seu lema neste ano: 


"Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim,

Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus".



E lembre-se sempre: ELE ESTÁ NO CONTROLE. 




Um 2016 abençoado a todos vocês!


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