quinta-feira, 17 de março de 2016

RENASCERÁ- PARA NÓS, OS DO MURO

RENASCERÁ - PARA NÓS, OS DO MURO
Nós, os que sobramos. O remanescente. Os cegamente otimistas.
Nós, os que acreditávamos até o último segundo que melhor uma democracia manca do que uma polarização erguida.
Nós,bandidos segundo um lado e elitistas por outro. Nós, os que ficamos em cima do muro, que ora não fomos nem pra esquerda nem pra direita e ora fomos para os dois lados. Os fracos, os incapazes de decidir entre as opções disponíveis. Nós, os que nos reservamos o direito de não ter opinião, simplesmente por não ter uma, mas descobrimos que na "era da opinião" isso é proibido.
Nós, que em meio à guerra entramos em coma, ficamos letárgicos, estáticos, atônitos, mais do que ambos os lados e assistimos ao combate incapazes de combater. Os covardes, que achavam que podiam ser espectadores, sem saber que essa posição seria ainda mais difícil de manter.
Nós, os que sentíamos inveja dos decididos, dos de opinião formada, mas que quando abríamos a boca não emitíamos som algum.

Nossa esperança era imbatível, mas nos últimos dias convalesceu. Descobrimos que nem sabíamos qual esperança era essa, mas críamos num caminho alternativo, ainda que desconhecido.
Nós, os que sobramos, ainda esperamos que amanhã tudo não passe de um pesadelo, mas nos regozijamos por uma nova esperança esquecida, na justiça que brota da terra.

Sofremos um golpe. Um golpe mais forte que de faca, pedra e revólver. Não ficamos surpresos, mas o choque em nós doeu mais forte. Pegou em cheio nas memórias, acertou o âmago de onde ficava o copo meio cheio. Não conseguimos comemorar.

Mas ela renascerá. Como o sol que se levanta a cada manhã, ela se erguerá ainda mais forte. Correrá neste rio de justiça que esperamos que corra nessa terra seca e sedenta.

E quando a luz finalmente brilhar, sairemos do coma em que nos encontramos. As coisas ganharão algum sentido. Nos perdoaremos por não termos combatido e seremos perdoados.

Ela convalesce, mas é imortal.

Neste instante, o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhará.

No alento do Pai Nosso entoado por Adélia Prado. Nas palavras mansas da brasileira do sertão nordestino. No sorriso do menino que amanhã vai à escola.

Ela renascerá.

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