quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O CÂNCER E EU - Relato de uma batalha

Foram dois anos, oito meses e cinco dias. Cada um deles contados com muita atenção e gratidão. Dois anos, oito meses e cinco dias desde o dia em que ouvi do médico da urgência do hospital: “A hipótese mais provável é de um tumor que está obstruindo o intestino. Ela não vai sair daqui hoje”.

Como assim “ela não vai sair daqui hoje”?!

Era o dia 27 de dezembro de 2013. Tinha sido um ano intenso pra mim. Entrei naquele ano em Praga, capital da República Tcheca, passando uma das experiências mais incríveis da minha vida. Por outro lado, tive que me adaptar a vida real fora da Aviação e enfrentar um dos capítulos mais tenebrosos da minha história. Já tinha sido o suficiente para um ano, mas parecia que as surpresas não queriam acabar. Lembro bem desse dia, ou pelo menos, daquela noite. Eu tinha saído pra encontrar algumas amigas e quando cheguei em casa minha avó continuava passando mal, após vários dias queixando de dor abdominal. Minha tia tinha acabado de voltar com ela de um hospital e o médico disse que provavelmente eram gases, porque “ela devia ter comido muito no Natal”, mas todos nós conhecíamos a minha vó e se ela dizia que estava com dor é porque a dor realmente estava intensa. Já eram 23h30 e ela estava cansada. Eu não aceitei o diagnóstico desse primeiro médico, mas ela não queria ir pra outro hospital. “Deixa pra amanhã... Amanhã a gente vai”. Deve ter passado algum anjo e soprado no meu ouvido, porque eu só consegui dizer: “Agora. Nós vamos AGORA”. Levei minha avó com dores abdominais pro hospital e achava que após uma simples medicação ela voltaria pra casa. Devido a proximidade do ano novo e ao horário, as ruas já estavam vazias e só tinha uma pessoa pra ser atendida antes dela. Engano meu achar que por causa disso ela seria atendida rápido. Foram mais de três horas aguardando atendimento. Durante esse tempo, minha avó começou a empalidecer e ter náuseas. Às 2h30 começou a vomitar. Um vômito estranho, com um cheiro forte, que eu nunca tinha sentido. Comecei a ficar assustada, porque nunca tinha visto minha avó tão mal. Quando finalmente, às 3h00, entramos no consultório do médico, vi uma cena que jamais poderia imaginar. Minha avó teve o chamado vômito fecalóide (vômito com fezes) e começou a piorar muito. Olhei pro médico horrorizada e disse: “Está com cheiro de fezes, Doutor!”. Pelo olhar dele, eu sabia que não voltaria pra casa com minha avó naquele dia.

Foi uma madrugada terrível. Enfiaram uma sonda enorme no nariz da minha avó, para retirar o que estava no estômago. O rapaz do raio-X, pra melhorar a situação, fez o exame da face ao invés de fazer do abdômen, o que causou mais transtorno. Acho que entrei em transe, porque tudo daquele dia parece ter sido só um sonho ruim. Lembro da primeira vez que ouvi o médico dizer a palavra “câncer” e me fazer perguntas que agora ganhavam um novo sentido. Lembro do meu pavor ao me dar conta da notícia que teria que passar pra minha família. Lembro de alguém murmurando algo sobre “risco de infecção generalizada” e outro médico falando que “o caso era muito difícil”. Eu ia perder minha avó. Eu sempre soube disso, mas naquele dia isso se escancarou. Achei que ela não fosse viver muito tempo e que aqueles seriam os nossos últimos dias. Com todo aquele pavor e sem sentir direito o chão em que eu pisava, eu ainda tinha que tranquiliza-la, sem saber ao certo o que dizer. Ainda não era o momento dela saber.

Então vieram cheiros, sons, sentimentos, lutas, que eu não conhecia  e me sentia sortuda por não conhecer. Lembrei de quando passava ao lado de um hospital e pensava “coitadas dessas pessoas”. Lá estava eu, sentindo cheiro de fezes, urina e álcool, ouvindo apitos de todos os lados dos aparelhos que cercam os pacientes, vendo sangue ser manipulado com naturalidade e comendo a comida que tantos abominam, coisas absolutamente comuns dentro de um hospital.  
Minha avó não se entregaria fácil e uma equipe de médicos muito bem capacitada pegou o caso. Foram vinte e três dias no hospital. Já em janeiro de 2014, foi realizada uma cirurgia para retirada de parte do intestino e reconstrução do ureter, que tinha sido comprimido pelo tumor. A médica disse que o câncer já vinha se desenvolvendo a algo próximo de dez anos, porque o primeiro centímetro do câncer de intestino demora muito pra se formar (cerca de cinco anos). Dez anos que minha avó convivia com a doença e não sabia.

Como era de se esperar dela, minha avó surpreendeu todo mundo e saiu rapidinho do hospital. Começamos então a lidar com um nome antes pavoroso até de ser pronunciado, chamado “quimioterapia”. No início doía pra falar, depois, passei a falar com tanta naturalidade que acho que algumas pessoas pensavam que eu fazia pouco caso da situação. Quando você lida com o mesmo inimigo durante muito tempo, falar o nome dele não se torna tão pavoroso.

Conhecemos um anjo chamado Dr. Caio Heleno, oncologista do Ipsemg. Um médico extremamente humano, sensível e solidário ao paciente e à família, sem deixar de ser realista e profissional.

Minha avó enfrentou a batalha com fervor. Os efeitos colaterais não tiravam dela o sorriso e a vontade de viver. Com exceção dos dias em que os efeitos eram piores, ela levava uma rotina relativamente normal. Meus amigos quando a viam pessoalmente não acreditavam que era ela quem enfrentava a situação que eu relatava. Quando você lida com o mesmo inimigo durante muito tempo, precisa aprender a conviver com ele.

Descobri que o câncer é uma montanha russa. Na mesma hora em que você está lá em cima e acha que nunca mais vai descer, vem uma queda abrupta, um loop, que tira o paciente e a família do eixo de novo. Foram meses de uma sucessão de boas e más notícias. Um outro tumor se desenvolveu no ovário, no final de 2015, e uma hérnia enorme começou a causar problemas de novo. Os médicos e eu sabíamos que o tempo de sobrevida da minha avó não era longo e então deu-se início a uma batalha para encontrar um médico que quisesse operá-la. Conhecemos aí a face mais cruel da “indústria da doença”, porque fomos em dois médicos que tentaram nos extorquir (não consigo dar outro nome) para fazer uma cirurgia dentro do hospital conveniado. Penso em quantas pessoas, no momento de desespero, se endividam por algo que jamais precisariam pagar. Quando você lida com o mesmo inimigo durante muito tempo, descobre que ele lucra com o sofrimento dos outros.

Mais uma vez, em sua infinita graça, Deus colocou uma excelente equipe médica em nosso caminho, de um jeito que só poderia ser fruto da graça. Minha avó acabou tendo que ser operada na urgência devido a uma complicação, mas o médico que tinha se proposto a operá-la foi quem fez a cirurgia. De novo, minha avó surpreendeu e saiu super bem da cirurgia. De novo, o lampejo de esperança e alívio tomou conta do nosso coração.

Desde o primeiro dia em que recebemos o diagnóstico, soubemos que já havia acontecido uma metástase pulmonar. Vários nódulos pequenos estavam espalhados por todo o pulmão. Não havia cirurgia possível, mas com a quimio eles poderiam ser controlados. Minha avó nunca sofreu por causa deles, até maio deste ano. Uma pneumonia complicou o quadro dela e dois meses antes do meu casamento achei que fosse perdê-la. Nenhum médico acreditava que ela fosse sair daquela vez. O pulmão já não saturava como antes e minha avó passou a não conseguir efetuar tarefas simples. Mas Beatriz não era todo mundo e mais uma vez ela saiu do hospital e aos poucos foi conseguindo fazer pequenas atividades.

O oncologista nos avisou o que viria a seguir. O quadro dela melhoraria com corticoides e ela conseguiria chegar ao meu casamento. Depois disso, os corticoides deixariam de fazer efeito e aí viria a piora. Médicos não são Deus, mas estão mais acostumados com a morte do que nós e foi exatamente assim que aconteceu.

Tivemos dois meses da mais profunda mistura de sentimentos. Alegria e tristeza, esperança e desespero, expectativa e cansaço. Fizemos o que estava ao nosso alcance para trazer alegria aos dias da minha avó, qualquer que fosse a quantidade deles. Conseguimos sair de casa algumas vezes, com a cadeira de rodas e o oxigênio. Ela assistiu ao concerto que tanto queria e comeu todas as comidas que quis.

No dia do meu casamento, lá estava ela, linda num vestido azul. Entrou andando, sem o suporte de oxigênio. Foi o melhor presente de casamento que Deus me deu. Pelo menos por uma noite, pude ver minha avó plena. Alguns dias atrás, meu pai me mostrou um vídeo deles no carro, indo pro casamento. Minha avó olhava pela janela, quietinha, pensando em algo que nunca saberemos o que é. Talvez tenhamos chance de descobrir, se partirmos desse mundo em uma situação que permita despedidas.

Os últimos dias dela não foram tão cheios de vida. Ela foi pro hospital em uma situação muito difícil por causa do pulmão. Minha tia avó, que cuidou dela de forma maravilhosa durante todos esses meses finais, me ligou em um domingo à noite, pedindo que eu fosse para BH, porque a situação havia se complicado. Peguei o último ônibus e vim orando durante todo o caminho para que tivesse tempo de fazer uma última oração. No peito, aquele aperto por não ter passado as últimas semanas com ela.

Tivemos três semanas para nos despedir. Ela, como sempre serena no olhar e no jeito simples de falar com todas as pessoas, conquistou cada profissional do hospital. De vez em quando, ela desabafava dizendo que nunca tinha pensado que ia ficar assim. Ficava constrangida quando trocávamos a fralda ou tínhamos que dar comida na boca. Ela dizia: “Come primeiro, depois você me dá”. Sempre pensando nos outros antes dela. Ela não reclamou em nenhum momento. Queria poder dizer que ela também não sentiu medo, mas infelizmente isso não é verdade. Pediu alívio algumas vezes, quando já não conseguia respirar. Foi aí que tive que tomar a decisão mais difícil da minha vida e permitir que a sedassem. Não podia vê-la sentindo dor, como se estivesse afogando fora d´água.

Os cinco dias seguintes foram os piores da minha vida. Minha avó continuava viva, mas não estava mais conosco. Conheci na pessoa que eu mais amava a terrível respiração agônica. Os lábios secaram, a língua também. Já não havia mais resposta, não havia mais sorrisos, não havia mais o abraço. Pegava a mão dela e colocava em cima da minha cabeça, tentando guardar para sempre a sensação daquele calor sobre mim.

Consegui imprimir aquelas mãos na minha alma e no dia 02 de setembro de 2016, após dois anos, oito meses e cinco dias desde o diagnóstico, minha avó deu seu último suspiro e partiu para a eternidade com o mesmo semblante sereno de toda a vida. Não consegui chorar. Eu e minha tia avó estávamos dormindo há cinco dias juntas no hospital, porque uma se recusava a deixar a outra sozinha, sabendo o que aconteceria a qualquer momento. Se me mostrassem esta cena antes, eu choraria desesperadamente, mas naquele momento, a única coisa que veio ao meu coração foi: “Não sofra. Ela está bem”.

Minha avó se foi e partiu levando um pedaço de mim que nunca poderá ser preenchido. Perdi a conta de quantas noites chorei desde que era criança, só de pensar nesse dia. Numa das noites no hospital, chorei de uma forma que nunca tinha chorado antes, como se o choro viesse do meu umbigo. Foi uma dor tão grande que eu literalmente me contorci.

O câncer me pôs a prova diversas vezes. Colocou minha fé e todas as minhas convicções no fogo. Tive inúmeros momentos de raiva, ódio, desesperança, vontade que tudo nesse mundo acabasse logo.

O câncer me colocou frente a frente com a morte, mas também com a vida. A realidade da vida.

O câncer me fez ler a Bíblia com outros olhos e entender palavras de vida eterna de outra maneira.

O câncer é uma doença democrática. Não escolhe idade, classe social ou momento ideal para entrar na vida das pessoas. O câncer sempre se adianta, sempre entra cedo demais na vida de quem escolhe. O câncer não diz que virá só uma vez nos assombrar. Pode voltar a qualquer momento, em quem ele quiser e transformar nossa vida em uma montanha russa de novo.

Na verdade, acho que o câncer não é a montanha russa, a nossa vida é que é.  A vida de todo mundo, com ou sem ele. A questão é que o câncer coloca um holofote nisso, escancarando aos nossos olhos a fragilidade da vida. Essa máquina perfeita, que funciona de uma maneira que a ciência nunca conseguirá explicar por inteiro, também é completamente frágil, completamente inutilizável.

O câncer me fez querer um corpo incorruptível, me fez desejar uma vida com sentido, uma vida que valha a pena. O câncer me fez entrar em desespero ao perceber o quanto desperdiço o meu tempo. O câncer ativou uma ampulheta dentro de mim e ao ver quão rapidamente ela se esvai, eu tenho vontade de fazer tudo diferente. O câncer me fez amar mais as pessoas, ser mais paciente com os erros dos outros, entender as escolhas que os outros fazem diferente de mim.

Agora, eu estou bem certa de que nem morte, nem vida, podem nos separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo, nosso Senhor, que faz com que todas as coisas, inclusive o câncer, cooperem para o nosso bem, para cumprir o Seu soberano propósito nessa Terra. (Romanos 8)

Porque eu descobri uma alegria suprema, que vai além de toda e qualquer circunstância, que mesmo quando eu estou me contorcendo ao chorar, toma conta de mim e me faz ver a glória do meu Salvador que em breve virá restaurar todas essas coisas. (Filipenses 4:7, Apocalipse 21)


Porque Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele pois, seja a glória para sempre, amém! (Romanos 11:36)

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